Prefácio

Já se passaram vários anos desde que conheci Alba Valéria.
Um dos nossos primeiros contatos pessoais foi causado por um cão que Alba encontrou abandonado pelas ruas e o levou para sua residência. Era um filhote de Labrador negro, que acabei adotando, mas que infelizmente fugiu também de minha residência. Um eterno vadio... Que largou tudo de bom e de melhor para vadiar pelas ruas... Será simplesmente mera coincidência Alba tê-lo encontrado?
Durante algum tempo ela se correspondeu comigo através de emails, se colocando sempre como uma verdadeira guerreira, em busca da vitória em seus questionamentos, em busca das conquistas e triunfos de suas guerras particulares ou mesmo públicas.
Houve tempos em que sentia que o desânimo atingia sua alma, porém rapidamente buscava forças e a verdadeira Alba resurgia, cheia de vida, como uma águia em seu céu, alçava vôos gloriosa.
Em um desses momentos, sugeri que ela escrevesse a história de sua vida, seus questionamentos e suas posições, tanto em relação aos preconceitos sofrido, quanto em relação ao desgaste de ser uma portadora do Vírus da AIDS.
Felizmente meu pedido foi aceito e para minha grata surpresa os capítulos foram fluindo, com grande espontaneidade, numa linguagem clara, com grande influência dos ambientes das redes sociais, e demonstrando uma filosofia de vida de uma pessoa totalmente resolvida, vívida e vivida. Seu texto nos leva para uma carga enorme de emoções e de compreensão por momentos de revolta, que às vezes ela passa.
Como é gostoso ver a colocação de apelidos, em relação aos seus maridos: “Marido Saradão” e “Cavaleiro sem Cabeça”, principalmente esse último, que expressa sua sabedoria no reconhecimento da alma humana.
Como é compreensível a coragem dessa mulher guerreira, quando se posiciona perfeitamente diante da representatividade de sua mãe, filhas, parentes e amigos em sua vida e na narativa. Enfim, um texto carregado de emoções, sem preconceitos diante de seu estado e de sua vida, demonstrando claramente sua disposição e pressa de viver. Não tão intensamente ou desregradamente quanto viveu em sua juventude, mas agora numa valorização dos pequenos gestos, dos pequenos fatos, que levam a vencer e viver uma grande vida.
Tenho certeza absoluta, que através dos capítulos, cada leitor, seja um jovem ou idoso, terá um respeito enorme pela coragem da Alba em dizer que tem Aids e pela ousadia de nos encostar na parede e perguntar: Eu tenho... Você gostaria de ter Aids?

Carlos Cabral

Eu por mim mesma

Sou Alba Valéria de Oliveira, nascida no dia 19 de março de 1969, natural de Porto Alegre, filha de Luiz Carlos D Ávila de Oliveira e Maria Salete de Oliveira. Sou a mais velha de seis irmãos, todos moram em Esteio, exceto minha filha mais nova. Tenho duas filhas de pais diferentes: Gabriela de Oliveira, 27 anos, mora em Esteio - RS, casada, fotógrafa, mãe da minha neta Lara Cristina de Oliveira de 10 anos, e a Camilla Oliveira e Souza, 22 anos ,vive em Unamar na casa dos avós paternos.
Tenho ensino médio completo, um curso de licenciatura inacabado, e comecei a trabalhar bem cedo, com 14 anos, contra vontade da minha mãe, mas fui mesmo assim.
Nasci em Poá - RS, mas até meus cinco anos eu vivi em Esteio. Meu pai veio para São Paulo, conosco 1974.
Minha infância foi solta nas ruas do centro da Vila Buarque, Sesc, Vila Nova, Major Sertório, Praça Roosevelt, etc.
Aprendi a me virar sozinha muito cedo e ter que cuidar dos manos, dando-me um senso de autoconfiança, bom e ruim, como tudo no percurso da vida.
Comecei a usar maconha com 14 anos, tive minha primeira filha aos 17anos, a segunda filha com 23 anos. Recebo uma pensão do “Cavaleiro sem Cabeça”, vivo de aluguel, ganho cesta básica, quando tem, da Subprefeitura de Tamoios, ou Igreja Católica de Rio das Ostras.
Sei que não precisava dizer, mas digo mesmo assim, minhas duas filhas são gays. No começo me culpava por não tê-las criado, ter sido tão ausente, mas a culpa passou e amo as duas como são, torço por elas. Camilla é mais amiga, mais íntima. Já Gabriela é revoltada e barraqueira.
Eu adoro cães, praia, e quero aprender muito nessa vida! Nada de extraordinário...

Alba Valéria

Capítulo 1 - Tudo começou com um marido saradão

Quando começaram a falar de Aids em 1987/88, morava sozinha no centro de São Paulo, tinha um namorado por semana, 20 anos, esperta, achava que poderia identificar um portador do HIV, sentia-me protegida, tinha absoluta certezade que jamais algo me aconteceria.
Conheci um carioca lindo, porte atlético, mergulhador da Petrobras, a fim de casar comigo. Era tudo que eu precisava. Casar mudaria minha vida para melhor, pois ficaria protegida da Aids e teria um parceiro fixo, já que gostava muito de sexo.
Perfeito, usavamos drogas, compartilhamos o mesmo canudo para cheirar o pó, tivemos a primeira relação, tive uma febre durante toda a noite, e pela manhã estava tudo bem.
Não dei importância e afobada para o casamento, marcamos a data e casamos. Viemos morar em Búzios, Geribá, canto esquerdo.
Engravidei em 1991, e fomos para a Tijuca, Rua Uruguai, gravidez de alto risco e com oito meses da gravidez, comecei a notar que meu marido sarado estava abatido, não comia, só chorava pelos cantos da casa. Perguntei-lhe várias vezes o que estava acontecendo, ele dizia: nada, não se preocupe. Mas não tinha como ignorar, vendo ele naquele estado.
Um dia segurei-o com toda força que pude e o interroguei. Ele com a voz trêmula disse que tinha recebido uma ligação de um amigo, que estava em estado terminal no hospital. “Vou morrer, sou aidético”...
Naquele momento minha barriga de oito meses de gravidez endureceu e ficou tudo cinza, nada tinha cor, somente cinza...
Sem conhecer nada na Cidade Maravilhosa, passei a mão na minha bolsa e fui sozinha fazer o teste. Demorou uma semana para ter o resultado que foi positivo...
Fui à consulta com o obstetra, que me indicou ir ao Gafre Guinle. Com o resultado do exame nas mãos, por sorte do destino fui recebida por uma equipe que estava procurando uma gestante soropositiva, para testarem o método seguro de nascimento de um bebe de pais positivos para o HIV.
Propuseram-me que fizesse laqueadura de trompas e me deram rémedios para nao ter leite, sendo assim fui proibida de amamentar meu bebe. Correu tudo bem, nasceu o primeiro bebezinho de pais HIV+, sem o virus no Brasil. Minha filha, hoje está com 22 anos.
Foi muito delicado passar por tudo isso, afinal de contas me achava tão esperta, imune a qualquer situação, levei uma rasteira da vida, sem contar o preconceito que eu e minha filha sofremos por parte da minha familia que é toda de Porto Alegre. Fiquei viúva seis meses depois, e até hoje minha mãe não me abraça, tão pouco a minha filha.
Uma vez fomos ao Sul visitar a familia e minha querida mãezinha perguntou: você não veio morrer aqui né?
Realmente quem vê cara não vê aids... Aprendo todos os dias a dar valor a minha vida, respeito meus limites, e tento não pensar na família, porque sei que eles querem me ver morta, sou motivo de vergonha...
Sinto pela minha filha, embora ela não tenha o virus, foi discriminada por toda minha família... Lamentável e até hoje é assim.

Capítulo 2 - Revolta do marido saradão

Durante o tempo que dividi entre a espera para a cesariana, e as crises de desquilibrio emocional do meu marido, me deu a nítida certeza de como não deveria agir diante da nova verdade, ser portadora do HIV.
Com uma vontade profunda que tudo desse certo, encarei e comecei a procurar por apoio. Conheci um grupo recem criado na época e que existe até hoje, e fui tendo a direção a seguir. Na verdade cada um tem um modo de reagir, mas quanto mais tranquilo puder ficar, melhor, pois assim os pensamentos nao agitam... Tudo vem na cabeça, mas a meu ver, querer viver é um grande passo. Conversava muito com ele e a família toda o paparicava. Acho que isso também atrapalha. Ser muito paparicado deixa a pessoa fraca.
Assistia aquilo tudo com uma enorme confiança na equipe médica que ia fazer o parto. Chegou o dia fui para uma sala com toda a equipe médica, assinei muitos papéis, inclusive um onde aceitei a laqueadura das trompas, evitando assim futuras gestações, e que penso deveria ser assim com todas as mulheres contaminadas. Para que correr um risco pequeno, mas que existe. Adota, se quer muito ter um filho.
Durante a cirurgia estava dopada, mas pude entender o que aconteceu na sala com uma das enfermeiras da pediatria, mas conto depois.
Nasceu muito forte, muito bela, e meu marido, só na droga achando que tudo estava acabado. Cheirava, bebia, ficava sem dormir, não comia direito, pois com o sono desregulado a pessoa muda horários.
Foi diminuindo a imunidade, só pensava coisa ruim, coisa feia. Sinceramente teve um dia que peguei a mala, o bebe e sai correndo dele. Não aguentava tanta depressao, que entrega... Tudo isso foi me dando força para encarar meus montros, meus conceitos. Analisava cada passo, e assumir e ter a decisão de viver na verdade foi mais fácil que me esconder numa mentira. Dava-me mais segurança. Todos o conheciam, e eu nao conhecia ninguem.
A Tijuca é muito provinciana. As pessoas vinham me perguntar, eu falava que era aids mesmo.
Muita gente me conhece por isso, por ser assumida. Sou muito criticada, mas já conquistei verdadeiros amigos.
É necessário ter coragem para correr o risco, sabendo que o perigo existe. Coragem de assumir e mudar, corrigir, doutrinar o mundo interno também. Existem leis para proteger os contaminados, mas tem que mostrar a cara. Como se luta por uma causa sem entrar no campo para a batalha? Nesse caminho de 25 anos já vi muitos amigos se despedirem da vida brincando, numa brincadeira nada inocente. Pensam: dane-se o outro, ja estou f..... mesmo. É justamente ai que mora o perigo, jovens meninas fazendo sexo cada vez mais cedo. Triste! Os amigos sumiram, a casa ficou vazia, e nem o dinheiro resolvia.
Era triste de noite, era tristeza de dia...

Capítulo 3 - Atendimento

Depois do casamento frustrado, um marido emocionalmente fraco, fui me orientando pelos erros alheios, e criando meu campo de defesa, que foi optar pelo real, o que já era... ja foi... Simples, mas isso transformou muita coisa e não me dava conta.
Fiquei sem casa, sem marido, sem filha, desempregada, dentro de uma delegacia, a 19ª DP.
O marido saradão já estava desnutrido, desarmado da beleza e o que sobrava era um orgulho ferido, e achava que eu tinha que sofrer a dor dele.
Fui levada para a delegacia porque não tinha onde morar e os investigadores e até o delegado, na época, se sensibilizaram com minha história e me ajudaram, junto com um casal de vizinhos, em todos os meus direitos e vivo aprendendo bastante a cada dia tendo a sorte de encontrar pessoas de alma branca capaz de fazer diferença na vida de outro.
Aprendi sobre meus direitos e com a ajuda dos investigadores, que se uniram na ocasião para me ajudarem, me indicaram emprego e logo arrumei moradia, sem saber onde estava minha filha, sim, pois sem casa como podia ter um bebe? Esse foi o argumento usado pelos advogados na época. Com ajuda dos policiais que armaram uma situação onde foram obrigados a me dizerem onde estava minha bebezinha. Ai foi que conheci Unamar, Tamoios. Eles tinham vindo morar aqui escondido de mim. O marido saradão morreu e o velório foi uma comédia. Arrumei um trabalho em uma academia na Tijuca, na Mariz e Barros.
Recem viúva, 22 anos, recepcionista, chovia cantada. Teve um professor que vivia me perturbando, não dava trela para ele, mas teve um dia que ele me perturbou muito, pensei é hoje que vou dar uma lição nesse fdp. Marquei o dia, a hora, tudo certo, vestidinho, tudo certinho, joguinho de olhares, etc e tal, e perguntei a ele se usava camisinha. Ele disse: Uso, mas com você não preciso usar, você é gostosa. Perguntei-lhe: Mas como voce sabe que não tenho? Ele simplesmente respondeu que o seu sensor lhe avisaria.
Fomos para um hotel, esperei ele tomar seu banho, pois já tinha tomado o meu. Ele veio todo louco, puxei o exame dentro da calcinha (era um papel enorme dobradinho), abri e o entreguei e continuei acariciando-o, afinal ele tinha dito para não parar. Nessa hora fui vendo um homem desmoronar, foi a perfeita cena de queda instantânea que já vi. Ele me olhou branco, eu já estava de pé, colocando minha roupa calada, corria o risco dele até me agredir. Então percebi o risco que corri. Permaneceu o silêncio, ele ajeitou-se, tudo certo saindo. Depois pegou forte, me abraçou e disse bem alto da besteira que ia fazer, e ficou meu AMIGO.
Foi um risco, mas necessário. Perdi meu trabalho alguns meses depois, mas tudo bem... Acho que coisas desse tipo foram me dando mais e mais sinal de que ninguém está imune, tipo fique alerta, é facil detectar em alguem ja debilitado, ou com os efeitos dos ARV, porque causam efeitos, por ser uma doença degenerativa, ou seja, ela acelera o metabolismo. Fácil detectar esses, mas o bonitinho e a bonitinha não dá para saber, sem contar o fator genetico como se a pessoa tem tendência a emagrecer vai emagrecer, se tiver pré-disposição para a obesidade vai engordar. Aids é bem humana nesse sentido (risos). Usar camisinha continua sendo o melhor jeitinho de previnir.
Ainda sem estrutura para vir morar aqui continuei pela Tijuca, fui conhecendo pessoas, sempre com o estigma Aids. Quando conheci meu segundo marido, pensei em passar a noite com ele e adeus. Era só usar camisinha e não precisava dizer nada. Numa secura total, afinal é dificil ter HIV e fazer sexo. É muita preocupação. Enchi-me de coragem e fui. Dei uns beijos, agarrei e tal, e já com a festa boa, eu olhei para ele e brochei, me deu um treco ruim, e disse: Vamos parar, não posso fazer isso.
Ele me perguntou o por que. Então contei sobre minha sorologia. Ele me beijou e disse querer casar comigo, pensei e lhe disse que era mais louco que eu. Ele riu e disse que já sabia tudo a meu respeito e quis ver se eu seria sujeita mulher. Bah! Que tri! Casamento com um soro discordante fiquei muito preocupada, conversava muito com minha médica, tudo certo, tive vida de rainha, porém com um cavaleiro sem cabeça.

Capítulo 4 - Fui parar no Jornal Nacional

O Jornal Tamoios está sempre inovando, considerando cada detalhe, agradeço e serei sempre grata, sei que o assunto é polêmico, meio tabu, mas o objetivo é esse mesmo: existir alguém que seja referência, pois o assunto entrar em pauta.
Estou feliz, não devia estar afinal quem fica feliz em falar de Aids?
Eu fico rss... O assunto é um fato, existe. Agradar a todos é impossivel. Sensibilizar alguns, conscientizar outros, alertar, animar, servindo de alguma forma, esse é o propósito, para os que ja sabem que tem, mas vivem se escondendo, relaxem, há vários como nós, para os que não tem ou acham que nao tem, cuidem-se, Aids não tem cara. NEM TODO MUNDO QUE TEM SABE, NEM TODO MUNDO QUE SABE DIZ, NEM TODOS QUE ACEITAM SÃO LEGAIS, pois existem os revoltados que pensam em contaminar geral. Existem muitos, que pensam assim, infelizmente.
Não quero tirar ninguém de sua zona de conforto... A vontade é de gritar mesmo. Vejo nos postos de atendimentos, quantas meninas, com filhos, mas a questao é que estou toda orgulhosa, não devia, mas cada um se alegra com o que lhe convém.
Para quem tinha dúvidas, agora tem certeza, para quem não gosta de mim, não muda nada, para quem precisar, tenho contato... Rs. Estou-te ntando fazer minha parte, recebo tudo do governo: pensão, 21 remédios, médicos, exames, e transportes gratuitos, é uma forma de retribuir ao UNIVERSO o que ganho. Se queremos um país, um Mundo melhor, temos que ter atitudes imediatas. Olha o Mundo como está. AGRADEÇO ao JORNAL, que sempre me dá voz, por me fazer sentir viva, e escrever é um ato de autoanálise, mexe com emoções.
Como menina mais velha de cinco irmãos, assumi responsabilidades que me fizeram amadurecer muito ligeiro, às vezes tenho a sensação de que pulei alguma fase.
Diante do furacão em que me encontrava mantive a serenidade isso ajudou muito. A família morrendo de vergonha, pois meu rosto foi estampado na Rede Globo, no horário nobre, falando sobre Aids, no Jornal Nacional (12/10/92). Nada foi proposital, as coisas foram acontecendo, devido ao nascimento da minha filha. Foi um avanço para a equipe médica, entendi como uma conquista e uma p.... sorte do destino. Recebi doações, leite, muito leite, farinhas, roupas, muitas coisas. Francamente, nada me incomodava, a felicidade e tranquilidade foi tanta, mesmo durante os três meses de exames que tivemos que fazer, exames no bebe, o HUGG, bancou tudo, pois os exames vinham especialmente para minha filha, e se não estou enganada, vinham da Alemanha.
Estava em estado de graça, pois a equipe toda era muito atenciosa e, nem tinha consciência da proporção que tomou. Na primeira tentativa de procurar a familia, pois nao suportava tanta lamentação por parte do marido saradão, logo que tentei fugir de mala e cuia para Porto Alegre, liguei para minha família, avisando da intenção de fuga, ouvi de minha mãe uma frase que não me agradou muito: NÃO VEM NÃO, NÃO QUERO QUE VENHA MORRER AQUI...
O efeito foi de um buraco no chão e uma queda no nada, com minha filha nos braços. Tinha onde morar, tinha comida, mas não tinha paz, pois a família dele sempre me acusou de tê-lo infectado, e isso realmente nunca me importou, porque não culpo ninguém pelos meus erros e não adiantaria naquele momento, mas o tempo foi mostrando, uma por uma das ex do marido saradão morreram.
A solidão que senti me fez entender que a única pessoa que queria meu bem era eu mesma. Então guardei o orgulho de lado e resolvi não me submeter aos caprichos de pessoas maliciosas e perversas que não faziam a menor cerimônia em me colocar para baixo, o instinto de sobrevivência me ajudou, lembrava de quando menina tinha que cuidar dos meus irmãos, porque minha mãe abandonou a casa e foi embora para São Paulo. Sentia-me como naqueles dias que fui abandonada com meus dois irmãos, e quando chegava a noite não sabia acender o lampião. Era a única hora em que chorava muito, com meus irmãos com fome. Tive a ideia de gritar e chamar os vizinhos e do meio do nada apareceu um idoso, que caminhava lento, foi chamar minha avó que morava longe e que chegou junto com a luz do dia.
Sempre fui muito corajosa, não sou anjo, sou é sortuda mesmo, DEUS, UNIVERSO, ALGUÉM no além gosta de mim. As atitudes na vida tem um retorno em longo prazo, dependendo de como encaramos os obstáculos, lhe damos força ou destruímos. As lamentações de vida do marido saradão só serviram para levá-lo mais rápido para a cova. Desculpe-me pelo termo, mas foi isso mesmo, morreu rápido em um ano. Tive outros grandes conflitos com a família dele, mas não convém falar. Os sofrimentos existem para fortalecer, não para derrubar, dependendo da importância que se dá a eles e não adianta driblar o destino, pois aqui faz, aqui paga. Hoje em dia, vendo meu ex-sogro encostado no balcão de um conhecido estabelecimento em Unamar, não tenho mágoas, mas também não morro de amores. Cada um tem aquilo que merece e procura. Não tenho pretensão de expor ninguém, cada um com seu fardo. A Aids não me assusta, o preconceito é mais venenoso, e mata mais rápido, mata a dignidade, mata as pessoas fragéis.
Quando minha avó, num ato de carinho me ensinou a acender o lampião, me senti tão independente, foi tão importante na minha vida aprender a acender aquele lampião, está aceso até hoje.
Amo minha família, sei que não me amam. Tenho um tio milionário, na área de turismo no Brasil, que sustenta a família toda e a cartilha é rigida. Entendo, não tenho interesse nenhum, lógico que aceitaria, qualquer contribuição, mas tem que ser dado com amor, não por obrigação. Assumo minha parcela de culpa, mas não posso viver de cabeça arriada, tenho que manter minha dignidade. É a única coisa que tenho. Não sou vítima de nada, tão pouco exemplo de nada, sou um ser tentando ser feliz, tentando levar a vida. O tempo ensina. A Aids me tornou mais ajuizada. Meio contraditório, mas é fato, passei a amar mais minha vida, respeitar, ser menos impulsiva e observar o ser humano. O bem é um investimento de longo prazo, coragem é uma palavra forte, às vezes choro, mas de alegria. Logo depois de sua partida, passei por maus bocados, mas como ja disse, lá do além sempre vem uma ajuda, seja como for. Nesse momento mesmo, estou recebendo um impulso muito significativo na minha jornada. sendo contada de uma forma poética, uma história que tinha tudo para ser triste. Dizem que tristeza dá mais ibope, mas prefiro alegria.

Capítulo 5 - Milagres

Certa vez morando, na Tijuca, com calor, resolvi ir a praia, logo depois de conseguir o ``Vale Social Especial`` da Fetransporte, que dava direito a passagens gratuitas nas linhas do municipio.
Estava na intenção de relaxar e não queria falar de Aids naquele dia, ao menos tentar ficar na minha, não queria conversa. Fiz sinal para o ônibus e o motorista com toda a gentileza que lhe é peculiar (deve ser norma das empresas tratar mal os caramujos), perguntou-me:
- O que é esse cartão? Qual é sua deficiência? Eu com as mãos fiz sinal que era surda e muda, e para não dar conversa, sentei-me logo atrás do motorista. A viagem seguiu, tranquila, o ônibus parou num ponto, subiu uma senhora falante, com uma bolsa, ajudei a mulher com suas sacolas, e acomodadas seguimos viagem. Acontece que me distrai com a senhora, que começou a bater papo comigo. Eu que não sou de falar muito, me empolguei no assunto. Já nas curvas do Alto da Boa Vista, o motorista, ouvindo o barulho de tiittitititi, virou-se para trás e perguntou nervoso:
Ô! Que negócio é esse? Nao disse que era muda e surda?
Num lampejo de sabedoria levantei as duas mãos para o céu e gritei:
- Milagre, milagre... Quem estava próximo deu risada. O motorista olhou para minha cara e a viagem seguiu na paz.
Na Praia da Barra uma vez, estava deitada tirando onda de sereia, passa por mim dois salva vidas, conversando. Na minha total ingenuidade olhei..rss. Pouco tempo depois, volta os dois salva vidas e uma conhecida maluca dos tempos passado,que me indaga, cheia de autoridade:
- O colega tú tem Aids mesmo ou é só para dar ibope?
Sem ter o que responder, dei uma risadinha tipo quero um buraco e mantive a postura. Ora veja, dizer que tem o virus é para ter ibope, a que ponto chega o preconceito... rssss.
Nos meus tempos de rebeldia em que morei na Tijuca e trabalhava no Bingo Tijuca, saia de madrugada, com a galera, aquela agitação toda, na Carvalho Alvim, num bar de esquina (esquina se fosse boa, seria reta) chega um doido, totalmente desequilibrado, queria dar porrada no sorridente àmigo de trabalho, por motivos acontecidos no passado. A porrada comendo, segura ai, segura aqui, me pus na frente do maluco desequilibrado, irmão de um conhecido, que tinha carrocinha de frutas, numa outra esquina. Só que ele não tinha me visto e sabia da historia de Aids. A galera que estava comigo não sabia de nada, eram todos do trabalho.
O maluco desequilibrado, me viu na frente dele e congelou, e a gritaria foi geral, todo mundo pancadão, correndo, se escondendo com os o zoio arregalado. EU, não me pergunte como, calmamente olhava para o maluco, ele dava uns passos para trás eo povo achando que eu tinha poderes. Fui gostando daquela situação e facilitei demais diante do preconceito, sendo alvo certeiro de injúria.
O maluco desequilibrado deu um berro:
- Sai sua aidética... Fica dando de boa moça, passando Aids pra geral
Justo eu que mantinha um jejum forçado, por falta de candidatos destemidos... rsss.
Aquilo foi espanto geral dentro do botiquim. Não se ouvia ninguém, só o murmurim... Congelei, sentei, a ficha caiu... Doeu porque mantinha meu padrao vibratório numa frequencia, e tinha que voltar e trabalhar tudo novamente. Enfim, passei a mão no celular, liguei para meus amigos investigadores, que tinham me apoiado em tempos passados, expliquei a situação. Não demorou cinco minutos, duas viaturas, e todo mundo foi para a delegacia 20.
O maluco desequilibrado gritava, dizendo que era nivel superior, levou uns cascudos. Colocaram o grandalhão dentro da viatura, chegando na delegacia, primeiro levei uma bronca dos meus amigos por estar de madrugada na rua, fazendo bagunça. O grandalhão ouviu o puxão de orelha, quis crescer e deu uma confusão enorme dentro da delegacia.
O delegado, que depois da bronca me disse que se eu processasse alguém por ter me chamado de aidética, não daria nada. Eu já estava decidida a esquecer tudo, ir para casa e curar a mente de tudo aquilo. Porém o grandalhao não parava de tirar onda de nivel superior e que eu era aidética mesmo, que todo mundo sabia etc, etc. Só que ele também não sabia que o delegado conhecia minha história na Tijuca, rssss.
O maluco não parava de gritar, os policiais o levaram para dentro para ele conhecer as dependências do estabelecimento e demorou... Demorou...
Ele voltou calminho, dizendo que gostou do passeio. O delegado olhou firme nos meus olhos, levantou da cadeira, bateu com as duas mãos na mesa e me disse para processar esse fdp....
Eu, na minha inocência, rebelde em causa, tentando manter minha postura de não tive nada com isso, perguntei-lhe:
Mas não foi o senhor, que disse que não ia dar e nada, se ele me chamasse de aidética?
Ele levemente abriu um sorriso e disse-me:
- Vai embora daqui e cuide-se!
Segurou o maluco por algumas horas, Eu não do tipo que arruma confusão para os outros resolverem. Mas nesse caso foi necessário... rssss... VIVA A VIDA!!!


Capítulo 6 - O segundo casamento

Promiscuidade! Esse é o primeiro julgamento. Sim quem procura acha. Sinceramente se você sair procurando quem tem AIDS duvido que encontre um, rss...
Talvez assuma um ou dois, mas a coisa está tão banalizada, que tem gente achando que ter Aids é bom NEGÓCIO, porque recebe do governo...
Aff........ É cada uma...
Certa vez, depois de um dia de churrasco na casa de amigos, muita bebida, música, animação, calor, etc. e tal... O sujeito queria transar comigo, providenciamos uma saída estratégica e fomos fogosos. Finalmente iria sair do meu jejum. Aquela animação, na hora H, eu já rapidinho trabalhei nas preliminares, vesti o moleque com terno cintilante, bem perfumado, aquela fragrância suave que te adormece, rss... Toda ,aquela situação, o galante jumento preparado... Tudo pronto, e ele tira o terno do moleque. Assustei-me e perguntei-lhe se tudo estava bem, o que tinha acontecido?
-Nada, só transo com você sem camisinha.
Fiquei em estado de choque por segundos, mas voltei logo ao meu juízo perfeito, a carne só é fraca se o espirito não é decidido. Corri da situação e perguntei:
- Mas por que você quer transar comigo sem camisinha? Sabe que eu tenho HIV, você não tem medo?
Ele abriu o jogo, dizendo que avaliando a vida dele naquele momento, ter alguma deficiência o ajudaria, e se fosse para escolher, escolheu ter aids, e a transmissora do vírus do AMOR, seria eu. Há! SEM ENTENDER DIREITO MINHA ATITUDE, disse-lhe que não lhe daria esse prazer, porque é um fardo para GUERREIRO E NÃO PARA COVARDES ...
Sai daquele lugar com uma sensação tão limpa que podia flutuar. Meu prazer foi na alma... Sei lá... VIVA A VIVÍDA...
Outro dia, conheci uma mulher na reunião de adesão, que temos em Rio das Ostras, com uma história de muito preconceito. Ela é uma mulher linda negra, sofredora com filhos, sarada, que mora em Aquárius e que todos a conhecem por ter Aids. Ela também é assumida, e de uma coragem de arrepiar.
Aqui em Tamoios, há muitos, como eu, que achou que morando numa cidade pequena seria mais tranquilo. Ledo engano. É por aqui, que a luta inicia. Viva a vida e respeite o próximo, porque o próximo pode ser você! Já ouvi dizer uma vez, que aqui era um reduto de Sida. Se assim o fosse não teria tanto preconceito. Só podemos entender a dor do outro, quando o outro é a gente...
Fiquei emocionada com as histórias de preconceito, que as pessoas mais humildes sofrem , isso me comove e me dá certa raiva, mas é claro que não fazem isso comigo, como xingar no meio da rua, se bem que o nobre responsável pelo restaurante aqui de frente de onde moro, já gritou de dentro do bar que não queria meu dinheiro porque ,tenho o sangue podre. Sinceramente, sabe por que não processo de alegria? Sim, porque pessoas assim, cavam sozinhas suas covas. Só é preciso ter paciência, porque o tempo é o dono da razão.
Nada mais me abala, quando se trata a meu respeito. Já criei uma espécie de couraça e o que não devo e não posso, é ficar quieta.
Mas vamos a história do meu segundo casamento.
Sim, éramos felizes... Ele era muito conhecido no Andaraí, mas entre nos conhecer e casar levou um mês. Não levava fé, mas nos casamos.
Quando o conheci não tomava medicação nenhuma, iniciei o acompanhamento, pelo HUGG, depois fui para Curicica porque o marido saradão teve uma tuberculose e toxoplasmose, sendo indicado para aquele hospital em Jacarepaguá, e automaticamente fiquei em observação. Pelos dois motivos fiz vários exames e não tive nada, graças a Deus. Porém já havia passado dois anos e aquela seria a primeira de muitas consultas.
Estava na hora da consulta, e estava muito atrasada. Pensei comigo: na hora de ir para a farra, o que não falta é carona ,mas nessa hora...
Quando o pensamento se passa, me chama atenção um maluco gritando de dentro de um táxi do outro lado da rua: vem, vem, vem... Era ele, o Cavaleiro...
Ele havia lembrado de um comentário que fiz, e para me agradar fomos e voltamos de táxi da tijuca ao hospital em Curicica,
Achei aquele gesto tão legal, não estava sozinha, e cheia de sorriso, entrei no consultório, expliquei a situação para a médica e ela deu as explicações que vou esclarecendo aos poucos.
Para o meu espanto a minha médica sempre dizia que eu estava bem, mas sempre perguntava quando iria morrer. Dessa vez foi o médico que me perguntou se eu queria morrer.
Disse não. Então ele me disse que eu não iria morrer. Ufa que alivio! E me perguntou se queria continuar bem. Claro que disse sim. Ele jogou uma peteca, segurei a peteca e pedi explicação.
Disse-me que poderia ficar sem medicação, pois estava bem, não sentia nada de nada, nova, trabalhando e poderia continuar assim pelo tempo que quisesse, mas até que algo me acontecesse estaria desprotegida, pois era fato que o vírus estava comigo.
Parei, pensei foi engraçado. Pedi para sair da sala e fui tomar um ar. E o cavaleiro lá atento a tudo, perguntou se eu estava bem. Respondi que sim. Pensei se ia tomar logo esses remédios ou deixar pra lá ou pensar nisso depois.
Uma vozinha, bem baixinha, que ouço de vez em quando, me fez ver que espécie de vida queria ter, e me passou como um filme rápido. Voltei para a sala dizendo que queria iniciar a medicação. A médica disse que não poderia parar mais. Aceitei, estou viva até hoje, porque logo em seguida tive uma das minhas cinco pneumonias. Vi a estrada da morte. Se não tivesse usando os ARV, teria morrido rápido. Ufa que sorte, passei raspando, e o cavaleiro sempre atento, ensinou-me como comer corretamente, deu-me passeios de carro importado que o patrão deixava com ele nos fins de semana, restaurante, viagens, tudo do bom e do melhor, roupas caras, tudo dentro de casa, carro, moto, terreno em Unamar, drogas e mais drogas e noitadas bebidas.
O início do uso de alguns remédios causam muito desconforto. Tive muitos enjoos, com a primeira combinação, com um remédio que tinha que ser tomada em jejum por duas horas antes e depois. Imagina... E depois se tentasse comer não descia, era horrível. Detalhe: duas vezes por dia. O apetite sexual bloqueou, não conseguia fazer nada e nem queria que me tocassem, não olhava no espelho, fiquei um pouco fechada. Ele dizia que era como uma ostra... Que carinhoso.
Sempre me respeitou muito nesse sentido, eu nem gostava daquele respeito todo, e mantive uma abstinência sexual, por alguns anos não consegui, me irritava. Conversava com ele, mas dizia que estava tudo certo. Fiquei tranquila nesse ponto, porém não devia ter ficado. Acho que errei muito nesse sentido, porque não entendi o que estava acontecendo, e isso fez com que ele procurasse outras mulheres na rua e dessa forma estava perdendo meu marido.
Voltei às atividades numa boa, usava camisinha, porque não queria que ele contraísse o vírus, apesar dele dizer ser complicado ter que usar camisinha e que me pouparia por isso. Achava aquilo meio estranho mas me acostumei com a situação. Não devia, mas vivendo e aprendendo.
Viemos morar aqui em Unamar, mais perto da minha filha. Ele trabalhava a semana toda na casa dos patrões, viajava muito e só viria aos fins de semana, até que por obra do destino resolveu vir morar de vez por aqui, começando a experiência mais difícil, a meu ver....

Capítulo 7- Cavaleiro sem Cabeça

Quando vim morar em Tamoios, pela primeira vez, o marido cavaleiro aposentou-se pelo jogo do bicho, mas continuou trabalhando em vários lugares: macaense, guarda municipal de Cabo Frio, guerreiro, até para São Paulo ele viajou com uma equipe de cozinheiro do então prefeito Marquinho Mendes. Era dinâmico. Não conseguia ficar parado. E minha dificuldade em fazer sexo continuava. Tive um bloqueio por longos dez anos, não fazia, não tinha vontade, e ele parecia bem compreensivo. Tínhamos uma vida boa, não nos faltava nada.
Novamente os amigos se foram, as festas acabaram. De repente um resfriado que não curava, uma tosse, foi fazer exames e (sinceramente já estava desconfiada, mas não podia falar homem com doença fica com medo), cheguei de um curso e rapidinho me mostrou o exame, que havia buscado o resultado e falou-me:
- Agora somos iguais...
Deu um sorrisinho cínico, tive vontade de fugir, parecia estar vendo um filme já visto. RELAXEI, respirei fundo e com vontade de correr, ouvi suas explicações. Assumi a culpa, afinal era isso que ele queria. Disse o quanto sentia e assumi sem dúvidas. Sentia-me culpada, me sentia muito mal e fui tentando ser a mais compreensiva possível. Mas, sinceramente me deu vontade de abandoná-lo, porém não consegui.
Agora não tinha mais jeito, a médica indicou que fosse para o Gafre Guinlé (mais uma vez na minha vida), com o linfoma avançado, deram uma previsão de três meses de vida. Isso secretamente, só eu e a equipe médica sabíamos.
Acontece que desde o início havia lhe dito, que achava muito arriscado fazer sexo, e acho que foi isso que me bloqueava, tinha uma super preocupação de infectá-lo, e não conseguia, embora fosse com preservativo.
Conversávamos muito e numa de nossas conversas, confessou que saia com mulheres e transava com quem quisesse, um pó ou uma bebida, achando estar fazendo a coisa certa. Se foi um modo dele aliviar minha culpa, talvez tenha dado certo, porque daquele momento em diante parei de me sentir responsável pelas escolhas do marido “Cavaleiro sem Cabeça”. Amei-o, fui o que pude ser, mas só não me culpo. Por isso é muito difícil ter alguém, sendo HIV. Sempre se corre o risco de ouvir a mesma conversa tipo: Olha o que faço por você. És uma doente e mesmo assim te aceito. É uma conversa típica. E muito desagradável. Ou você cola com um maluco, mais maluco que você, arrisca até apanhar de homens covardes. POR ISSO O MELHOR E SE AMAR, TER AMIGOS E NADA DE CASAMENTO. Porque a cobrança vem. No meu caso, que pareço não saber escolher companheiro, tudo bem, aceito a derrota, que sirva apenas para minhas anedotas.
Durante esse percurso da descoberta do câncer a morte do “Cavaleiro sem Cabeça” houve muito mais, mas seria imprudência revelar tais fatos. A verdade é que ter o vírus não é só tomar remédios e achar que dá conta, é complexo, toda uma questão de adaptar um vírus na tua vida. O vírus é um amigo tirano, tipo dormindo com inimigo.
Realmente as escolhas nos dizem quem somos. Passei a levar isso em consideração, quando fiquei viúva pela segunda vez, e praticamente do mesmo jeito.
A primeira vez que fiquei viúva, o marido saradão estava em crise, só cheirava, bebia e transava com a geral. Houve aquela confusão toda a respeito do bebezinho, eu trabalhava, eles já tinham pegado minha filha e eu consegui com a polícia o direito de ficar no apartamento até quando quisesse, mas entreguei logo, não por medo, mas por burrice mesmo (rs).
Voltando a morte do saradão, eles me tortuararam psicologicamente, comi o pão amassado, enfim, uma bela noite armando um temporal, me deu um arrepio e uma vontade incrível de encontrar o saradão, sai do apartamento, desci o prédio, começou a chover e alagou tudo.
Encontrei o saradão dentro de um carro cheio de gente cheirando, na Rua Carvalho Alvim. Pedi que subisse ao prédio para secar e trocar de roupas, afinal tinha algumas coisas dele comigo. Ele aceitou... Isso numa sexta feira, passamos um final de semana ótimo, assistimos filmes, comemos, conversamos e ele disse que ia embora. Muito debilitado foi, mas tínhamos combinado de ir ao médico juntos, pois seria um jeitinho de ficar com minha filha um pouco.
Liguei na segunda feira cedinho, pois combinei no trabalho e troquei o horário do dia para acompanhá-lo ao médico.
Minha cunhada atendeu e me disse chorando que ele estava morto, que não tinha ido para casa, mas para o morro cheirar. Morreu de overdose .e com o marido “Cavaleiro sem cabeça” foi igual, mas diferente.
Desde o começo da situação eu sabia que sua vida não passaria de três meses. Minha situação era delicada, mas ele sabia que estava indo. Ele me contava seus sonhos, seus delírios com toda aquela medicação, e me assustou muito. Mas fui forte até onde aguentei. Teve uma série de reflexos na minha saúde, cheguei a ficar em observação, tamanho era a carga emocional. Sozinha, a família dele nunca gostou de mim, por eu ser soropositiva e por ele querer ficar comigo. Tratavam-me com educação, mas a distância. Eles iam me visitar, porém pouco conversávamos e horários não batiam, tudo para que não houvesse intimidades. O processo de evolução do câncer que o dominou foi cruel e ele foi um GUERREIRO. E assim, percebi porque fui apaixonada por ele.
As imagens que já vi, e o tanto que pretendo batalhar, dentro do meu possível para que ninguém precise passar por isso, o HUGG foi a nossa casa por longos 14 meses. Ele se auto afirmava uma cobaia, de tantos remédios e exames que faziam...r ss.... e foi cobaia mesmo. Mas valia de tudo naquela situação, ele continuava cheirando, até bebia. Saia do hospital, quando queria, já tinha o leito dele reservado, era muito engraçado, todos nos conheciam. Resolvi então fazer uma visita a minha filha, porque com toda aquela situação da saúde dele, o aniversario da minha bebe já tinha acontecido e vim passar um fim de semana em Tamoios. Ligava para ele toda hora, e acompanhava seu dia através do celular. Tivemos uma conversa longa pelo telefone, à noite sonhei com ele. Conversamos a noite toda pelo sonho, tão real... Usava toda medicação do câncer e mais o coquetel. E cheirava e bebia, não adiantava dizer que não.
A morte do “Cavaleiro sem Cabeça”, também foi por drogas, todas misturadas. Eram muitos remédios e usando aquelas porcarias de drogas com bebidas.
Cheguei em casa de viagem, conversei com ele, peguei sua bolsa, continuei conversando, até que me perguntou se não ia abraçá-lo. Cheguei perto e a ficha caiu, ele estava mortinho, e minha cachorrinha ao lado, velando o corpo.
Fiquei em estado de choque. Estava conversando com ele, como podia ter acontecido? Chamei a vizinha e só consegui tirar o corpo dele, depois de 14horas. Foi uma historia a parte e ainda teve gente dizendo que eu envenenei o marido “Cavaleiro sem Cabeça”.
ENQUANTO FUI A MULHER BOAZINHA, QUE TUDO ACEITAVA, FUI OTÁRIA. DEPOIS QUE SUBI NAS TAMANCAS PARA ME DEFENDER, AI VIREI A VILÃ DA HISTÓRIA. O PRECONCEITO É TANTO, QUE ATÉ O CAIXÃO teve que ser lacrado.
Era representante de todos os lados, foi uma democracia geral o velório do meu cavaleiro. Teve até amante correndo de medo da viúva... rsss (brincadeiras a parte). A Aids, no caso de meu 2º marido a descoberta do HIV foi tardia e teve complicações, porque ele não teve uma boa adesão, e sem contar a vida irregular com drogas. Tudo isso foi um fator agravante. Tudo pode ser controlável desde que se tenha uma boa adesão, comprometimento. Enfim estava sozinha mais uma vez, sem meu protetor, sem “nadica”.
Vim para Unamar, aonde dá para alugar um lugar, e me instalei pertinho da minha filha. Estou aqui há exatos cinco anos, e atualmente meu coração anda apaixonado por um piloto, que já tem muitas horas de voo e conheceu muitas aeronaves. Não vai querer pilotar um teco-teco, não é mesmo?

Capítulo 8 - Devaneios

Eu tive uma beleza, que não me ajudou. A falta de inteligência foi meu erro... Minha família sempre foi muito dividida, cada um por si, e tive que aprender a me defender sozinha... Ter beleza passou a ser o maior obstáculo, todos esperam mais de quem é bonitinho.
Conheci o Zezé de Camargo e Luciano, eu e Luciano nos apaixonamos, íamos fugir com o circo, mas fui descoberta, levei uma surra, e ele ainda foi atrás de mim, mas perdemos contato,
Sempre fui muito solta, fazia o que queria, mas não tive sorte porque não dei o que muitos queriam. Achava feio ter que fazer sexo com alguém para obter benefícios... Hoje penso bem diferente... rsss. Agora ninguém quer, rsss...
A verdade é que ter AIDS não me impede de nada, faço tudo (menos sexo) rsss. Não estou trabalhando porque ninguém quer empregar um soropositivo. Se diz que tem, não é empregado. Se não diz nada, esta agindo de má fé... Complicado, o jeito é apelar para a sorte e buscar a criatividade.
Vivo com uma pensão do marido “cavaleiro sem cabeça”, e dou GRAÇAS por isso. Vejo tanta gente tendo que trabalhar muito para ganhar o que ganho. Não posso reclamar e se tivesse que comprar meus remédios seria bem pior. Sim, mas isso não me agrada, quero voltar para a faculdade, gosto de estudar, quero fazer serviço social, estava fazendo licenciatura para pedagogia, mas o cavaleiro exigia atenção, sua doença foi devastadora e tinha que acompanhá-lo a tudo.
Estou fazendo parte de um projeto em Rio das Ostras muito interessante, o trabalho é árduo, pois pouco é investido no campo da prevenção. O Brasil já foi referência, hoje estamos nas mãos da farmácia, é triste, mas é realidade. A preocupação aumenta quando vejo, durante a espera da consulta pessoas cada vez mais novas, com filhos e AIDS, idosos que estão acima de qualquer suspeita, é apavorante. São muitos infectados. A AIDS está banalizada, a verdade é essa. RAZÃO essa, que a reportagem do pobre cavalo tenha tido mais ibope. Lamento pelo animal, que assim como quem tem aids, é ignorado tratado como BICHO.
É necessário conscientizar as pessoas, os jovens. AIDS tem que estar na roda de conversa. Conheço um antigo morador de Unamar, um jovem Senhor, que quando está sóbrio pensa no que diz, sabe as regras de segurança, mas quando bebe, perde as estribeiras, não quer saber de respeitar ninguém, fala o que vem a cabeça e queria transar sem camisinha. Prefiro perder a amizade, que ser egoísta. A carne só é fraca quando o espirito não é decidido...
Que espécie de pessoa seria eu, só pelo meu prazer, arriscar transmitir o vírus. O cara é um bb, mas, isso é crime? Assim como expor a sorologia de alguém. Sou assumida e essa é minha defesa, não tenho porque ter vergonha, mas não desejo a ninguém. Dou risada, brinco, porque sou forte mesmo, já criei minha couraça, mas a luta é diária e nada engraçada. Brincadeiras a parte, como já disse o poeta playboy: meu prazer agora é risco de vida. Podendo optar, opte por não pegar o vírus, e se beber não faça sexo, porque talvez não consiga colocar o preservativo ou até esquecer-se de usar o “guarda-pó” na criança... rssss.
Durante muito tempo me preocupei com o que iriam pensar a meu respeito, hoje em dia, sendo dona do meu próprio nariz, não preciso de aprovação de ninguém, só faço o que quero. Como é difícil ser quem se é num mundo onde todo mundo parece querer ser igual. Ter HIV não é legal, e a família mais uma vez discordando da minha postura, é assim mesmo. Enquanto você fica quieto é a vitima, é covarde não enfrenta a vida. Aí o sujeito ergue a cabeça, sacode a poeira e dá risadas, à volta por cima, então quer aparecer. Mas quero aparecer mesmo, ficar bem na vista para quem me ver lembrar logo da AIDS e, enfim não precisar dizer nada.
Sou protegida por artigos da lei em vigor, portanto, respeito para ser respeitada. Minha história não tem intenção de agredir ninguém, faço parte de um programa. Como é bom o despertar para a vida, que nobreza ser útil, trabalhar pelo prazer de se doar. Agradeço ao Universo. Enquanto isso sigo minha vida, vou iniciar um cursinho intensivo nos próximos dias e ano que vem volto para a faculdade, vou estudar mais. Paralelo a isso sigo meu tratamento numa boa, só preciso manter a alimentação, o sono em dia e também as caminhadinhas pela areia.
Pensando bem peguei pesado quando me referi ao sepultamento do “marido saradão” ter sido uma comédia, por outros motivos, não pelo fato em si. Afinal a morte não é tão ruim assim, quer dizer não deve ser...

Capítulo 9 - Você esqueceu que morri?

Durante esses cinco anos que estou viúva pela segunda vez, tive um sonho: Estava feliz, havia encontrado a casa no qual vivo até hoje, alugada, é um lugarzinho tranquilo embora perto de tudo e de frente para a rodovia Amaral Peixoto, aqui me sinto bem. Então na correria de ajeitar tudo, e instalar - me, o cansaço bateu e fui adormecendo com todos os planos em mente.
DURANTE O SONO, conversei com meu querido “Cavaleiro sem Cabeça”, contando-lhe os planos e de tudo que faltava comprar. Contei da árvore que há no quintal, lhe pedi que me ajudasse não ficasse só ouvindo, e continuei nos planos domésticos, para mobiliar, colocar rede e fazer um canil etc. Eis que Ele sério, cruza os braços, olha profundamente nos meus olhos e diz:
- Alba, você esqueceu que morri?
Acordei com a sensação de ter perdido um pedaço da história. Minha ficha caiu, sentindo-me, aérea e roubada nos meus planos, entendi que a morte não existe. O que existe em minha opinião é uma transferência de mundos. Nascemos sabendo que não somos desse planeta. QUEM TEM MEDO DA MORTE, NÃO DÁ VALOR A VIDA... Sim, pois pensar como é a morte, acaba esquecendo de viver ....
Vivo tranquila sem medo, tenho curiosidade , mas saberei esperar para ``matar`` a curiosidade... Rss... Já tive muitas experiências com a morte, já passei bem perto, mas não era a hora. Não tive medo. Medo é a fé no mal.
Tive um amigo, Nelson Fernandes, trabalhava numa empresa famosa de publicidade em Cosme Velho, no Rio de Janeiro. Ele já partiu para o andar de cima, tinha HIV, e sempre andava correndo com sua motocicleta Harley. Uma vez apavorada, com meus cabelos de pé, perguntei-lhe:
- Você não tem medo de correr, cair e morrer ? Ele respondeu:
TENHO AIDS, não vou morrer de acidente de moto, caso contrário estou condenado por duas vezes, se não puder correr com minha moto.
Achei muito interessante o modo como ele enxergava a própria realidade. Realmente não morreu de acidente, morreu de overdose.
Estou novamente atravessando o vale da morte, assistindo a morte lenta de uma pessoa próxima, não choro mais diante da morte, é egoísmo, querer que a pessoa fique. Deixe que siga seu caminho em Paz. Lamentável, mas faz parte da vida.
Minha cachorrinha está no vai não vai. Já lhe disse, que pode ir quando quiser. Até porque depressão baixa minha imunidade, então prefiro achar a morte até BONITA, dependendo de como for, e se for natural é LINDA!! É um modo que achei para não sofrer, porque nesse meio em que vivo a morte é alivio em muitos casos. Prematura ou não passa ser a resposta, não a pergunta por quê?
Minha história tem muita violência contra a mulher, envolvimento, com artistas, lado B, lado A, alguns presos outros mortos, acredito que não tenha inimigos. O que existe é a certeza de que nada disso me faz falta. Dinheiro na minha historia, só faltou eu aprender a vender o corpo. Fiz parte de um lugar que contando, você diria que copiei da novela. Não, é a novela que copiou de nós, eu e minha amiga Viviane, que perdi contato. Éramos muito unidas. No “trabalho” ela era muito esperta, enquanto isso, eu tentava imitá-la, mas só quebrei a cara, literalmente. Por isso, digo da certeza que foi meu marido saradão quem me contaminou, porque os lugares por onde andei eram sofisticados e exigentes conosco em tudo, desde roupas, sapatos, maquiagem, exames, bebidas e até drogas.
Quando casei, achando que estava fazendo a coisa certa para fugir desse mundo, meu marido saradão, que me perdoe, mas quando ele me conheceu, eu estava iniciando meu curso rápido de inglês, pois foi a única exigência que meu tio Elói fez, não me ajudou, só disse que se eu tivesse o inglês básico, me enviaria para trabalhar em uma de suas agências de turismo. Estava Decidida a mudar de vida, pois meu envolvimento chegou a um ponto perigoso, exatamente na mesma época que tive um transe depois de usar umas 10 gramas de cocaína pura, trancada numa cobertura no centro de São Paulo, sozinha. Virada uns três dias, sabia de tudo, conhecia todos, sabia que naquele dia se tentasse sair de casa ia morrer, sabia que era um teste para sair com alguma droga, preferi ficar com a droga lá. Fiquei trancada com tanta droga, dentro do apartamento, que só de lembrar fico nervosa. Como pude ser tão corajosa? Acordei depois de um transe, de pé no parapeito da sacada da cobertura, com um aquário nos braços, ouvindo de longe, a voz de um homem me chamando:
- Moça desce, eu te amo. Moça desce, vem ficar aqui comigo. Era o vizinho neurótico que tanto implicava comigo.
Acordei assustada, gelada, branca, tremendo com um aquário. Assustei-me e deixei o aquário cair os mais de 20 andares, para baixo. Ele chegou logo depois e prometeu não me matar, por quê? Não sei, me deu dinheiro e me mandou sumir. Sai fora, mas minha amiga ficou por lá.
A polícia queria saber onde estávamos, pois nossos amigos eram a policiais que nos protegiam. E tinha sumido, eles pegaram a Viviane. Foi quando comecei o cursinho, larguei a noite e fiz a burrice de pedir ajuda para meu tio ricão, que serviu de experiência para nunca mais pedir nada para ninguém, batalhar pelo que é meu e ter muito cuidado ao se envolver com pessoas.
A Aids veio numa hora crucial na minha vida, depois da decepção do meu casamento, da merda que tinha feito casando com um cara que não tinha nada na cabeça, só maconha Foram tantas coisas erradas, que começando a lembrar, me dá certeza que Aids foi minha cura. Minha família nem imagina tudo isso, na época contei superficialmente a história para meu tio, sendo a única vez que pedi-lhe algo, e tenho vergonha até hoje por isso. Porém ele percebeu, afinal estava com a cara toda transformada.
Iniciei o curso com meus recursos. Dinheiro eu tinha, mas conheci o saradão, que trabalhava no mesmo prédio e aconteceu. Foi a experiência com droga mais profunda que tive, isso não é vida! Hoje não uso drogas. Só meus ARVs, mas assim que liberarem a canábis no Brasil, vou cultivar... Porque é uma erva natural, já usada como medicamento em muitos países.
Histórias em minha vida, não faltam. Graças a Deus. É sinal que vivo intensamente. Não sou envolvida com nada ilícito, só AIDS e mesmo assim VIVO A VIDA!!!

Capítulo 10- Talvez esse tal amor não exista e se existe não vai com minha cara

Como é difícil viver sem sexo! Parece engraçado, mas não é... Quando se tem HIV/AIDS fica complicado. Se digo que tenho, ele foge, se não disser nada me sinto como se estivesse cometendo um crime, embora seja com preservativo gosto de falar a verdade.
Conheci através da internet um sujeitinho da Espanha, e até hoje acredito que tenha sido uma brincadeira de muito mau gosto comigo. Ficamos por algum tempo trocando confidencias até que ele decidiu vir ao Brasil, tirou passaporte, mostrou pelo vídeo, mandou-me flores e sumiu. Acredito que tenha sido afetado pelas vacinas obrigatórias. Tentei encontrá-lo, mas sem resposta.
Depois conheci meu piloto, o chamo de piloto, porque é sua formação, mas na verdade ele é um executivo e não me autorizou a dizer seu nome. Sim ele também tem o vírus. Minha história em relação ao sexo é triste e violenta.
Quando menina, fomos morar em São Paulo. Minha mãe havia nos abandonado e já estava na casa da minha tia esperando por nós. Acontece que o efeito do abandono fez com que, o vínculo de amor se partisse, minha mãe tornou-se uma estranha, e meu pai alugou logo um apartamento para morarmos.
Minha tia viúva e primos moravam no mesmo edifício e para minha infelicidade, meus primos mais velhos que eu, me atacavam sempre, me pegavam nos corredores, no elevador, me agarravam, bulinavam, e não podia reclamar, pois apanhava. Os ataques eram constantes, ai então evitava sair, me escondia, mas não adiantava, não havia ninguém que me protegesse. Arrumei um namoradinho na aula de natação do Sesc de Vila Nova, em São Paulo. Contei-lhe o que meus primos faziam comigo. Ele era amigo dos meus primos e contou tudo a eles. Eu não sabia, e combinamos ir ao cinema num domingo. Era pertinho de casa, meus primos e o tal namoradinho me pegaram dentro do cinema e abusaram de mim. Apanhei muito do meu primo, porque fui reclamar para o seu amigo e também apanhei do tal namorado, porque fazia tudo que meus primos mandavam. Não sabia me defender e foi um longo tempo sendo abusada por eles, até que meus pais compraram uma casa na zona sul de Sampa e conheci meu primeiro namorado aos 15 anos, com autorização de meus pais, seguindo a vida feliz. Porém meus primos descobriram o namoro, foram até o bairro onde morava e me pegaram com o namorado. Foi uma briga só. Pegaram-me na frente do meu namorado e me abusaram. Fiquei arrasada, pensei que meu namorado não ficaria mais comigo, e realmente não ficou, mas demorou uns dias, ele voltou e reatamos o namoro. Só que ele havia mudado e me armou uma arapuca. Levou-me para um hotel com identidade falsa e me violentava com frequência junto com um amigo, me batiam, me chamavam de vários nomes horríveis, me culpavam por tudo.
Não entendia porque aconteciam essas coisas comigo, minhas roupas eram discretas, não provocava ninguém. Esse meu namorado recebeu autorização da minha mãe para me bater e me queimar com cigarros, sofri muito com aqueles dois.
O sexo que aprendi foi na base da violência, e não consegui me relacionar por longos anos. Saia com alguns garotos, mas sempre com medo dos meus primos descobrirem, porque eles vinham atrás e me batiam e estupravam na frente de qualquer um, dizendo serem meus donos. Sofri muito com tudo isso. Tentei contar para minha tia e parentes, mas levava muita bronca e me chamavam de mentirosa. Foi quando resolvi sair de casa pela primeira vez, e só voltei porque me encontraram vendendo churros na rua da praia em Porto Alegre, porque nessa época minha família já tinha voltado para o Sul novamente. Insistiram muito que eu voltasse, o frio era tanto que aceitei e voltei.
Tive minha primeira filha de um namorado que perdi o contato, mas fui totalmente amparada por um amigo que me deu todo o enxoval do bebe e me ajudava dando camisetas para vender, camisetas que ele desenhava lá em Sampa e me enviava pelo correio para que eu vendesse.
O sexo na minha vida não me traz boas recordações, mas como viver sem sexo? É torturante.
Meu ''caso'' com o piloto é uma vez por mês, e só quando ele pode e quer. Não sei nada da vida dele, só sei que fico a sua disposição, me chama eu vou. E acabei me apegando a ele. Já temos alguns meses saindo. Como podem ver, nada sério, apenas sexo. Mas como sou mulher, me apaixonei, rss...
Logo que vim morar aqui em Unamar conheci um ilustre morador, ficamos durante dois anos juntos, mas apanhei tanto que até na delegacia tem uma queixa minha contra ele. Não tenho sorte no amor, sendo assim, resolvi que não quero ter mais ninguém. Medo, sei lá. Vou suportando a espera pelo piloto, que some e aparece como nuvens no céu, sempre me escondendo do mundo. Tenho vontade de ter um companheiro, mas o medo me faz pensar e desistir.
AIDS é mais que um vírus, é um conselheiro. Talvez não sirva para sexo, talvez não saiba lidar com isso. Quero ser normal, porém pareço repetir os erros, ou talvez esse tal amor não exista e se existe não vai com minha cara.
Tenho um censo de auto crítica infeliz, malícia nunca foi meu forte. Já tentei me afastar do piloto, sabendo que não me leva tão a sério, mas ele ao menos me dá o que quero e sinto falta. Faço auto análise, me questiono muito em relação ao sexo, tento não pensar, mas confesso que suporto até onde dá, e espero por ele, que me ligue e chame. Virei refém do meu próprio desejo, e o exemplo são insônias frequentes, mas não penso só em sexo, é que faz falta mesmo, rss...
Logo depois que minha filha mais velha nasceu, fui trabalhar num posto de gasolina e saia à noite muito tarde. Uma vez um cara que eu havia proibido de estacionar a moto no posto, porque não tinha placa, pois era ordem do gerente, me esperou sair do trabalho, armado me pegou a força, me colocou na moto e me levou para um lugar muito longe. Bateu-me muito, me estuprou, arrancou meus dentes, deu vários cortes na minha cabeça, com tantas coronhadas. Consegui fugir dele porque que ele estava drogado, e nua pela rua, de madrugada me joguei em uma casa, tendo ele atrás de mim atirando. Cai num quintal de uma casa abaixo do nível da rua. Tinha um cachorro que não latiu, mas os tiros e gritos a minha procura fizeram o dono da casa abrir a porta assustado e sem acender as luzes, mandou que me arrastasse até ele. Obedeci, cheguei dentro da casa, era um casal de policiais, os dois armados me deram banho, comida e ligaram para seu batalhão. Não podiam sair comigo naquele estado, então me vestiram com roupas estranhas e chapéu e me lavaram para a Polícia Civil de Porto Alegre. Fizeram a ocorrência e levantaram que o safado era filho de um delegado, foram atrás dele, mas não soube se o prenderam. Sei que eu fiquei em uma clínica por seis meses, sendo acompanhada por pessoas muito boas que me ajudaram. Fiquei muito tempo sem me olhar no espelho.
Como podem ver, minha história tem muita coisa feia, mas real. Hoje superei tudo isso e tenho tido muito cuidado. Pareço imã para essas situações, sendo hoje uma mulher, não mais uma garota sozinha no mundo, largada a própria sorte. Sinto de longe a maldade, e só do jeito do sujeito olhar e andar, sei se é tarado ou não. Experiência, talvez... Minha família nem imagina que tenha passado por essas situações e hoje, se um homem tentar me agarrar eu gritaria:
- Tenho AIDS, tenho AIDS, tenho AIDS...
Viu a AIDS me protege...

Capítulo 11- Artista global? Nem tanto...

Fui ao meu trabalho voluntário que adoro, no posto de saúde em Rio das Ostras, onde participo do aconselhamento aos pacientes que irão fazer o teste rápido para o HIV.
Iniciando os trabalhos fui chamada pela direção do CTA. Chegando à sala, fui surpreendida por uma equipe de reportagem do RJ-TV, fiquei nervosa, mas consegui responder as perguntas, tremia como vara verde, rss... Agora veja só, estou me sentindo personagem de uma história, que esta tomando uma proporção animadora. A minha intenção é aparecer mesmo, temos que encorajar os que são massacrados pelo preconceito imposto por pessoas que se dizem religiosas, porque nesse meio de sida/dst há muitos homossexuais discriminados, marginalizados por hipócritas, que usam o nome de Deus para destilar suas frustrações, em pessoas que atravessam dores na alma. Já passei por essa fase, e quero poder falar por eles e com eles. Não sou a dona da verdade, tão pouco tenho essa pretensão, mas alguém tem que fazer o trabalho sujo, rss... E sou boa em faxina. Sei que não vou mudar o mundo, mas não posso ficar calada diante de tanta covardia, conosco, os contaminados.
E já que o JORNAL TAMOIOS ME DÁ ESSA VOZ, vou aproveitar...
Não entendi quando Carlos Cabral me disse que sou corajosa, porque acho que não sou, mas agora estou começando a entender. As pessoas ficam admiradas de como trato com naturalidade o assunto AIDS... Realmente não vejo nisso dificuldade alguma, porque é minha realidade e achava que todos pensassem assim, mas agora conversando com as pessoas a esse respeito percebi o tamanho real dessa realidade. Os que se escondem e abrem mão de direitos por medo de serem descobertos, por medo de apanharem e serem apontados nas ruas.
Tem um sujeito de Búzios, que veio morar aqui em Tamoios, porque se separou da mulher, professora na rede publica de ensino de Cabo Frio e Búzios. Pois bem, ajudei-o a encontrar uma casa e éramos amigos. Algumas vezes saímos para almoçar, nada, além disso, pois o considerava como amigo. Comentei com ele a respeito do Jornal Tamoios contando-lhe cheia de empolgação.
Ele foi leu, e ao encontrá-lo na rua, ele atravessou a pista e com passo largo seguiu caminho, dei uma de ingênua (coisa que não sou) rss... Esperei sua volta e de longe lhe perguntei:
- E ai leu o jornal?
Ele então olhando para os lados e com o passo apertado me respondeu:
- Puxa desculpe, mas não quero ser visto ao seu lado, se não daqui a pouco vão dizer que também tenho HIV.
Dei uma risadinha sem graça com vontade de xingar e afirmei:
- Mas você também tem o vírus, vai me discriminar?
Ele respondeu:
- A vida não é uma brincadeira de novela, não brinco com a AIDS.
CARACA, ele acha que estou brincando só porque sou feliz. Ele se condenou a viver triste e preocupado com os outros, que não o ajudam em nada, vão pensar. Quanto egoísmo. Quanta falta de coragem, quanta farsa. Senti uma dor forte no meu coração e realmente entendi porque Carlos Cabral disse que sou corajosa, e agora aceito como um elogio... ALEGRO-ME em ter AMIGOS COMO ELE DO JORNAL TAMOIOS. SEREI E SOU ETERNAMENTE GRATA POR ESSE INCENTIVO NA MINHA VIDA...
Diante dessas atitudes de preconceito fico me sentindo mais forte e mais decida a lutar por esses “fracos” de alma. Respeito quem quer o anonimato, ninguém precisa concordar comigo em nada, mas quando vem de alguém que também tem o vírus fico triste e preocupada, pois assim também chega a ser demais.
Mas voltando ao assunto do Jornal Nacional, justo naquele dia estava irritada, naqueles dias de vermelho intenso, e não quis nada me apertando. Resolvida, assumida no contexto da liberdade sai sem o acessório mais importante da vestimenta feminina em sinal de revolta.
Chegando, depois de visitar a sala do cafezinho, observei luzes. Adoro luzes e luzes... Fiquei assistindo até que a enfermeira iniciasse a reunião de aconselhamento das terças-feiras. Só que ela não me chamou para que fosse arrumar a sala e ajudasse a levar os kits dos exames e um monte de trecos, que para falar a verdade, não gosto nem de pegar. Enfim arrumei a mesa e já estava esperando a galerinha, quando a outra enfermeira me chamou para a entrevista d TV.
MEU CORAÇÃO DISPAROU E, AS PALAVRAS, TIVE QUE PEGAR NO LAÇO. TODAS FUGIAM E ME DEIXARAM EM CURTO DIALOGO. MAS O IMPORTANTE É QUE CONSEGUI RESPONDER AS PERGUNTAS. PODERIA TER FALADO MAIS, porém o calor que me deu no momento foi fora do normal. Uma coisa que me falta é juízo para saber usar a liberdade em momentos certos.
Fui para casa e assistindo o vídeo mais tarde, percebi que tudo tem um preço. A liberdade tem seu preço e nem tinha dado conta de quão feio é uma mulher sem a vestimenta mais importante, e confirmou-se então o que já sabia ao acordar: foi o dia da liberdade e revolta... kkkkkkk. Ainda bem que não tenho isso como hábito e serviu de doutrina para minha rebeldia, para meu caminho. Fora esse aprendizado, foi tudo joinha. Quero mesmo é aparecer, não tenho preocupação com esse tipo de opinião. Quero ser feliz e se esse for o caminho é por ai que vou.
Não tenho vergonha de quase nada nessa vida, mas dar entrevista na TV, sem sutiã é uma delas. Trauma já superado é hora de seguir adiante.
Pobre é uma criatura muda, mas quando começa a pedir ou reclamar é um horror, depois que inventaram o tá ruim!
O cinegrafista queria saber se eu era casada. Disse que não era casada e se fosse possível, colocasse meus contatos, todos riram, mas estava falando sério...
Será que consegui explicar direito? Responder perguntas é fácil, mas descrever um momento é para profissional!

Capítulo 12- A procura dos assaltantes

O Marido Cavaleiro sem Cabeça, realmente me surpreendeu do começo ao fim, entre todos os anos que tive a oportunidade de conviver com um companheiro. Homem do futuro, sempre preocupado comigo, querendo me proteger de tudo, ciumento, um Homem de classe, conhecia pessoas em todo lugar, em todo nível social.
Sempre trabalhou como motorista para o jogo do bicho e por isso conhecia muitas pessoas.
Eu sempre tive minha renda, mas ele bancava tudo. Do meu dinheiro ele não queria nem pão, uma vez brigamos por esse motivo, porém é outra historia.
Muito viciados os dois, entregamos os malotes da corujinha, descemos e fomos direto para a boca de fumo. Era uma sexta-feira, inicio do mês, ele com dinheiro, eu com uma bolsa nova, meus documentos e celular novo, porque naquele dia tinha ido à consulta e pego meus ARVs (coquetel).
Fazíamos quase tudo juntos. Passamos à tarde com nosso amigo Élcio da Tijuca, que estava conosco no bonde, pegamos muita droga, tipo 300 reais em pó, descemos as ladeiras voado, atravessamos a pista, ele fez a curva, um arrastão na Quinta da Boa Vista, tipo dez da noite, ele tentou dar marcha ré, os caras gritaram e mandaram parar, apontaram as armas para nós e levaram tudo, só a droga que não, pois estava escondida no carro. Eles caíram fora, ficamos paralisados, todos bem, contando a perda. Veio à memória o meu coquetel. Imediatamente ele olhou fundo nos meus olhos e disse:
- Teu coquetel? Ah! Isso não!
Ligou o carro. Quando ele ligou o carro eu já imaginei o que ele iria fazer e sai do carro rapidamente com ele nervoso gritando comigo. Haviam moças discretas na calçada, bem desnudas, me agarrei a uma delas e me negava a seguir com ele, até que não houve jeito. Ele foi direto para o Morro do Zoológico e perguntou para o dono da boca se algum grupo havia assaltado por ali.
Pensei que jamais sairia viva dessa história, mas ainda bem, que se precisar tenho testemunha, pois não acreditaria se me contassem... Nosso amigo nervoso no banco de trás, e nós dois tentando convencer o cavaleiro a desistir da ideia de recuperar a bolsa com os remédios, pois imaginávamos que os assaltantes estivessem longe.
Depois de rodar umas três bocas próximas, e pegando detalhes dos malucos, conseguimos chegar num morro, perto de um campo de futebol. Meu anjo da guarda foi chamado muitas vezes, mas naquela noite o cavaleiro desceu do carro e nos deixou lá em baixo, na entrada do morro e subiu com uns caras pra falar com o gerente do tráfico para identificar os assaltantes. Enquanto isso, eu e meu amigo estávamos desesperados dentro do carro, pancados os dois, e a adrenalina, não há droga que te de onda igual, teu nervoso ultrapassa qualquer possibilidade. Tínhamos muita droga e nosso amigo cheirou muito, esperando sua volta. Voltou com dois caras de moto. Subindo o morro pensei que iria morrer. O cavaleiro falou dois nomes e os caras ligaram para os assaltantes e eles apareceram, rindo...
Eu queria era sair dali, mas eles fizeram questão de me entregar todos os remédios e a bolsa com documentos, mas o celular e os documentos dele não acharam. Acertaram a conversa, acredite se quiser os caras ainda pediram desculpas... Tudo bem, as pernas tremiam, e enfim saímos do morro.
Quando pegamos o caminho de casa, já era cerca de três horas da manhã, o cavaleiro tem um ataque de riso e diz:
- Eu sou o maior mentiroso da história!
Ria sem parar, de nervoso. Nó sem saber por que ele dizia isso e por que ria tanto, então explicou que fez abuso de poder. E ria muito. Eu tremia mais ainda e só fui parar de tremer dois dias depois e, além disso, depois de tudo, tivemos que ir a delegacia fazer B.O, pois nossos documentos haviam sido levados. Foi cômica, a discrição de alguém, que você não quer descrever, descrita por três, figuras que não se entendiam nas formas, e sem contar que o motivo maior foi à devolução dos ARVs.
Estou viva para contar essa história e nosso amigo, largou as drogas e hoje trabalha como segurança numa empresa sólida, e o cavaleiro partiu para o além...
Desde que estou na página do Jornal Tamoios, a vida tem sido de muito carinho das pessoas, muitas, me olham com olhos diferentes.
A verdade é que estou VIVA e isso está me fortalecendo, realmente sinto uma alegria muito grande quando me lembro de PESSOAS dizendo que estou ótima, e que estou levantando o astral de outras pessoas que andam tristinhas...
Galera tristeza gosta de atenção! Não fuja da tristeza, faça experiências com ela, às vezes pensamos que estamos tristes, mas na verdade só estamos parados. Quando começamos a andar e fazer algo, as energias se renovam, e tudo passa a ter um novo sentido.
Estou na melhor fase da minha vida, pareço estar vivendo um sonho. Quem poderia imaginar uma pessoa toda errada, portadora do vírus da AIDS, desacreditada pela família, pois o preconceito exclui, enterra a pessoa viva, e de repente o Jornal Tamoios me dá um presente em vida, dando voz aos excluídos, e tudo se transforma, cresce de tal maneira, que parece um filme encantado. Estou muito feliz.
É importante sim, estar de bem com a vida e tratar as pessoas com amor. Alguns ainda confundem amor, com liberdade e libertinagem. Ter HIV não é sinônimo de promiscuidade. Esse rótulo incomoda, minha história com AIDS começa em 1989, se confirma em 1992 e desde o primeiro momento minha postura de doidivana e senhora de mim, fez toda a diferença.
Dizem que tudo na vida tem um por quê. Estou a procura do meu por que e mais importante: para que?
Tenho curiosidade em saber o que será feito dessa história que não tem fim, sim, pois estou vivinha, kkkk. Sem deixar a ansiedade me pegar, vou escrevendo mais páginas. Amo a vida! Amo essa cidade! Só posso agradecer e ser fiel ao destino que deus me deu! Se não tenho tudo que preciso, com o que tenho vivo, e agradeço...

Capítulo 13 - Mãedastra

Continuo minha vida na sabedoria do universo, paz e esperança num mundo mais justo. Faço acompanhamento em Rio das Ostras, porque aqui não tem e onde tem é ruim e longe. Aqui onde estou é ótimo, fui recebida com muito carinho desde o início, quando cheguei, há pouco tempo, com o ciclon nas mãos.
Nada é à toa, de tudo na vida tem que se ver os dois lados da situação e optar pelo melhor, pelo positivo, sendo justo nessa observação.
O médico que me acompanha em Rio das Ostras é o mesmo que está à frente no atendimento da infectologia e hepatites virais (HCV) de Santo Antônio, Dr. Ezequias, que adoro de paixão... Sempre tive sorte de ter bons médicos, mais que médicos, Amigos... Ele é muito tímido e humano. A Dra. Aparecida, uma ótima psicóloga, é de Cabo Frio e infectologista, tem um entendimento da alma humana. Gosto dela. Somos pacientes e temos que entender o lado dos profissionais, não podemos reclamar sem saber, sem conhecer o trabalho árduo que muitas vezes nem tomamos conhecimento. O investimento é pouco ou desviado. Estamos sempre no limite, com mais e mais pessoas contaminadas.
Hoje em dia tenho uma combinação de sete comprimidos diários, divididos pela manhã. Não sinto absolutamente nada, estudo (pouco), faço caminhadinhas. Escrevo para o jornal, tenho sonhos ambiciosos, estou num projeto muito legal. Tive várias falhas no tratamento por irresponsabilidade minha, mas agora tenho me cuidado mais, minha carga viral está indetectável e o CD4 está bom. Sou magrela, mas meu biótipo é esse. Geralmente quem tem tendência a engordar com a AIDS engorda mais. Estou com perda de massa no bumbum, porém por falta de exercícios. A verdade é que não é agradável ter HIV, porque é privado de muitas coisas. Dormir é fundamental, comer nas horas certas, evitar bebidas, pois não cortam o efeito dos remédios, mas sobrecarregam o fígado.
Se um soropositivo usar craque ele morre rápido, se cheirar morre mais rápido e se fumar maconha morre devagar, porque a maconha deixa a pessoa lerdinha. Sem contar a discriminação, hostilidade. O ser humano é complicado e do mesmo jeito que falo da tristeza, posso falar da alegria, se não fosse a AIDS na minha vida, acho que já estaria morta. Parece até ironia mas é verdade. Criei total responsabilidade sobre minha passagem por esse mundo. Ninguém vai dizer que levei problemas para minha família, porque da minha vida sempre cuidei e a única coisa minha que ficou com minha família foi minha filha mais velha, pois minha mãe fugiu com ela. Tive tudo para ser uma nova-iorquina, a querida da minha mãe me proibiu de sair do país. Família no meu caso, não me faz diferença, vou pelo mundo construindo famílias, sem dúvida seria menos amarga se me sentissem pelo menos respeitada e a partir desse ponto é que caiu minha ficha, assim como eu existem milhares que são escorraçados nos becos da vida e ficam em silencio. Essa dor mata a dignidade e tenho voz contra isso.
Tenho tantas histórias desagradáveis com minha querida mãe, que estou tendo certa dificuldade em descrever e relembrar fatos tão estúpidos que me fazem perceber que avancei em alguns graus. Poderia estar perdida por ai, poderia estar incomodando a família toda, mas estou aqui tentando descobrir meus próprios erros e desfazendo todo mal entendido em relação ao mundo.
Minha mãe teve uma infância de trabalho escravo, pois minha avó deveria ser uma doidivanas ou incapaz de dar-lhe amor, fazendo-a um ser frio e por vezes perverso comigo.
Minha avó Tereza e minha mãezinha Salete, não se falam há anos. Minha avó esteve muito mal de saúde e minha mãe nem quer saber da pobre velhinha, isso é entre elas.
Já em idade adulta pude perceber um ato nada amoroso de minha avó comigo, ela me ofereceu para um amigo velho caquético, que me explicou o que ela fez e me fez conhecer um lado maléfico de quem tenta enganar se apresentando como boazinha. Foi uma grande decepção na minha vida, até hoje quero acreditar que tudo não passou de um grande engano.
Talvez por esse motivo minhas duas joinhas, que deveria amar e serem minhas amigas, nada valem no meu contexto familiar. Tenho respeito por ter me gerado e ter permitido que eu tenha vindo a esse mundo. Não desejo mal de nenhuma forma, porém não vou dizer que não faça falta, faz muita falta um abraço, uma bronca, um gesto carinhoso de mãe, ou um comentário simples, tipo: Fiz isso que você gosta...
Esses mimos só tive da minha tia Dinorá, mesmo assim teve um preço que não quis pagar e rompi um laço eterno de confiança.
Sobre minha mãe há muitas histórias, e se fosse perguntar a ela, negaria com a face mais cínica que já tive o desprazer de conviver. Mentirosa, articulosa e ciumenta, essa foi a mãe que conheci. Violenta, estúpida e muito egoísta, muito... DESEJO a minha mãe muita sorte e sabedoria, que reflita bastante, para não cometer outros enganos.
Vou lembrando e anotando, pois foram tantos percalços, apesar dos poucos 14 anos que convivi com essa bruxa chamada Salete. Gosto dela, pois acho que já cresci um pouquinho para entender os conflitos internos que tudo isso me causou, mas tenho por minha família certa distância imposta pelo resultado de tantas desavenças, então para não matar nem morrer, cai fora cedo daquele tormento. Tive que voltar por mais uma vez, mas nunca mais voltei pra casa a não ser a passeio. E pelo que vejo tudo mudou, comigo não, nada mudou comigo. Rezo, oro, medito e entrego ao universo, coisas que não entendo. E se não entendo é porque não alcancei essa sabedoria. Sou feliz comigo mesma, não guardo mágoas, busco compreender e respeitar, cada um tem seus segredos suas revoltas, sempre ouvi da minha mãe que eu seria uma revoltada. Mal sabe ela, que eu era revoltada com ela, e nem mesmo eu sabia...
Lembrar histórias que me feriram tanto e tanto, por dentro, é tarefa para testar o amadurecimento da alma...
Deixei minha mãe me maltratar até onde pude. Na gravidez da minha primeira filha tive um sonho onde eu era bebê e outro recém nascido estávamos num berço totalmente cheio de água. O outro bebê chorava muito e lembro que encostei, tentando acordá-lo. Ele estava gelado e duro, então eu chorei muito, estava muito escuro, muito frio... Fiquei sozinha . Acordei com muito medo e fui à casa da minha avó e contei-lhe o meu sonho.
Minha avó com o cigarro entre os dedos ficou congelada e me deu a cuia com seu chimarrão. Naquela época ela ainda tomava a erva. Arregalou os olhos e disse que aquilo realmente tinha acontecido.
Então lembrei de tudo como no sonho e demorei uns dias para poder entender porque minha mãe dizia sempre que, quem deveria ter morrido era eu...
Sentia mágoa por ter roubado o direito de ser feliz e me sentia muito mal quando ouvia isso...
A história de abandono portanto, começa por ai. Tive uma irmã mais nova que não suportou uma noite de chuva, pois em cima de nosso bercinho tinha uma goteira que deixou nossa cama alagada. Estávamos sozinhas. Nossa mãezinha tinha ido atrás do meu pai, que era um mulherengo safado, (foi essa a história que minha avó contou), e quem nos encontrou no berço foi minha madrinha, que também não nos socorreu durante a noite. Ficamos a nossa própria sorte, e o resultado foi a morte de minha irmãzinha.
Essa descoberta me fez voltar ao passado por todo o restante da gestação. Minha mãe concorria o tempo todo comigo, como se fossemos rivais de alguma coisa...
É nojento demais ter ouvido da própria mãe, que eu estaria interessada no meu pai.
Como se vê minha relação com minha mãe vai muito além... Talvez eu tenha cometido algo de muito grave para essa pessoa em alguma vida passada, mas aprendi a respeitá-la como minha geradora, não amá-la como mãe. VIVER SEM SER TER AMOR DE MÃE É RUIM, mas sobrevivo.

Capítulo 14 - Sexo, seculorum... Simplesmente uma saudade

Estou passando por uma fase na minha vida, meio complicada em relação a sexo, durante muito tempo tive sexo a vontade, apesar de ter sido maliciosamente induzida ao sexo muito nova. Foi meu primeiro namorado que tirou minha virgindade. Ficamos um longo ano e oito meses juntos, namoro como antigamente, na sala, aos finais de semana, e depois passou a ser todos os dias.
Mas meu namoradinho era um sacana e logo depois a máscara caiu. Quando percebi que estava fazendo papel de idiota com ele, começou a insensatez. Conhecia muita gente, fazia amizade tão fácil, quanto inimizade. Sempre fui muito invejada por ser mais bonitinha que as minhas amigas e então rolava uns ciúmes.
Sempre fui mais amiga dos meninos do que das meninas, acho os homens mais sinceros e sem contar que mulheres sempre estão disputando alguma coisa, seja o que for, nós as mulheres também falamos muito, enfim, por isso os meninos tinham mais liberdade comigo e me davam carinho.
Acho que a carência em casa me fez buscar na rua, no sexo, a atenção que queria. Tive um namorado que virou travesti ,e me fez sentir culpa por isso, filho de uma amiga da mãedrasta, o garoto parecia mais um escravo da casa, aquilo era revoltante.
Certa vez estava numa festa em São Paulo na boate Liberty, na Liberdade, um bairro oriental que existe lá em Sampa, na verdade é na estação Vergueiro. Era uma casa de shows muito conceituada e rolava até uns tráfegos de mulheres, que conseguimos fugir. Enfim, teve um belo show de um travesti, assisti, aplaudi e papo vai, papo vem, chega àquele travesti, linda atrás de mim, me dá um toque no ombro e pergunta:
- Lembra-se de mim?
Na hora ri e disse;
- Você esta se confundindo, não lhe conheço.
Mas eu te conheço, disse ela, e contou a história mais maluca que já ouvi na minha vida.
Revelou que sempre tinha sido apaixonado por mim na adolescência e sentia-se desprezado porque eu nunca lhe dava atenção. Mas ele trabalhava tanto, não parava, cuidava da casa, dos irmãos, da comida de tudo, e nunca sobrava tempo para brincarmos. Erámos jovens, nossos pais ficavam jogando cartas, ele sempre ocupado e eu sempre pela rua, jamais poderia imaginar que pudesse ouvir na minha vida, que fui o motivo dele se transformar. Cresceu tão oprimido em seus desejos, foi querendo ser como eu, que se transformou numa bela morena de cabelão.
Rimos muito sobre tudo, depois de chorarmos e encher a cara com escocês. Hoje em dia ele vive na Itália, casou e levou sua família para lá.
Sexo na minha juventude antes da AIDS era promíscuo. Quando sentia a química, não pensava e me jogava de cabeça. A carência me deixou vulnerável, não media esforços para agradar meus parceiros.
Tive um paquera no tempo do supletivo, em Cidade Ademar, São Paulo, que sempre me dava uma caixa de bombons, todos os dias, quando ia à aula lá vinha ele com uma caixinha de bombom. Um belo dia perguntei se queria me engordar. Ele riu, saímos e fomos a um drive-in (lugar onde podíamos assistir filmes de dentro do carro). O filme começava, porém ninguém via nada, era a desculpa para namorar.
No meio do bem bom, entra no carro um amigo dele e começaram a se beijar. Sem saber o que fazer, fui saindo de mansinho e deixei os dois lá curtindo...
Sexo por sexo, não era minha praia, sempre me entreguei achando que poderia conquistar e agradar os homens e tê-los comigo. Ledo engano, que só a experiência ensina. Sentia falta de carinho, mas não sabia disso. Entregava-me tão facilmente, até conhecer o pai de minha primeira filha.
Ele era adotado, revoltado, roqueiro, cabeludo, maconheiro e frequentávamos os mesmos lugares, ficávamos juntos pela madrugada, depois da balada. Um dia fomos acampar com uma galera num feriadão, e como sempre, ia só com a grana da passagem, comia e dormia na barraca com ele.
Ficamos uma semana no mato, o pessoal saiu e continuamos sozinhos. Foi mágico e quando voltei para ''casa'', minha família havia mudado e a casa estava à venda. Eu estava sem casa, sem dinheiro, com fome, sozinha e abandonada pela segunda vez.
Tudo bem que tinha 17 anos, mas trabalhava e minha mãe sabia que eu tinha ido acampar. Fui até a loja que trabalhava, pois naquela altura do campeonato já não tinha nem trabalho, tinha faltado uns dias, mas tinha um dindin para receber. Contei a situação para minha tia Diná e fiquei na casa dela até ter o dinheiro todo da passagem, meus pais haviam voltado para Esteio no RS. Que situação! Fizeram-me de escrava! Trabalhava muito na casa da minha tia, por um lado foi bom, aprendi muito com ela, mas também fui explorada. Trabalhava juntinho com a empregada, fazia sem reclamar, porém não suportei muito tempo, juntei uma grana, meu namoradinho ajudou e voltei para Esteio atrás da minha família, por isso perdi o contato com o pai de minha filha mais velha e por isso ela me odeia, acha que fui egoísta, que só pensei em mim. Como poderia pensar em algo? Queria ter minha família de volta
Durante a gravidez tive a sorte de ter um amigo que me ajudava, mandando camisetas para que eu vendesse e me deu a maior força. No começo não fui direto pra casa onde minha família estava, fiquei por Porto Alegre vendendo churros na rua da praia, uma rua famosa de Póa.
Tinha meu par para fazer sexo. Mesmo grávida os homens se aproximavam de mim e sem cerimonia me cantavam e ofereciam o mundo. Kkkkk...
Nunca queria o Mundo, já tinha ganhado minha liberdade. O que queria era carinho e eles queriam, na maioria das vezes, apenas uma noite um relax.
Passou algum tempo, numa noite fria estava eu com meu carrinho de churros, em frente ao cinema, vejo meus pais saírem do cinema todos chiques, e vieram direto comprar churros. Eu estava usando uma toca tipo “Chaves” e gorda, com sete meses de gestação, causei um choque em minha mãe, quando ela me viu. Dei o churros e me convidaram a voltar para casa. O inverno estava muito forte e eu muito barriguda, e já sabiam que estava de volta. Acredito que tenham ido lá, ver se realmente estava grávida, e me chamarem para voltar para casa. Aceitei na hora, porque com 17 anos, tendo que pagar aluguel, comida e manter aquele carrinho pesado, subindo e descendo a Borges de Medeiros, não era tarefa fácil. Tinha voltado para casa. É tão confortável ter um lar, uma família, seja como for.
Mas como o sexo era meu refúgio, me apaixonei pelo vizinho, solteirão, que morava com a mãe. Tivemos um caso por todo restante da gestação, até eu sair de casa pela última vez. Quando minha filha nasceu, ganhei um maço de flores tão grande e lindo, com uma cesta cheia de produtos para bebe e mamãe, que esse vizinho mandou me entregar na maternidade, que fofo...
Viver sem sexo tem sido difícil, sempre fui muito fogosa e diferente de todas as mulheres, tenho desejos, apesar dos meus 45 anos, sinto vontade. Porém tenho muito medo de contaminar alguém, então vivo em falta, pratico abstinência, fico lembrando... Como é curiosa a vida, o destino. Sempre tive e fiz sexo sem preocupação, podia escolher com quem queria sair. Desejada e admirada pela beleza exótica, jamais poderia imaginar que um dia sentiria falta desse que era o meu prazer, minha válvula de escape, onde me sentia amada ou achava que era amada.
Até antes de casar, com o marido “Saradão”, fui promíscua, no sentido de não pensar no futuro, bastava me dar uns carinhos, falar umas palavras bonitas, me apaixonava e pronto. Fácil, fácil.
Casei achando que tudo mudaria que estaria me protegendo da AIDS. Quando começaram a falar sobre AIDS, me deu um medo, apesar de saber minha sorologia, pois os lugares que eu frequentava, exigiam exames feitos nos laboratórios indicados. Foi um ato de fuga que casei, com receio da AIDS, porque se falava muito de AIDS, de Cazuza e aquilo foi me dando mais vontade de ter meu cantinho, com minha filha, meu maridinho.
Realmente sexo faz falta, para a manutenção da vida, para saúde, bom humor, etc.
Mas não é tudo. Descobri que posso me amar, e que posso viver sem sexo. É difícil, mas estou aprendendo. Viúva há cinco anos, conto nos dedos de uma mão, as vezes que pratiquei o ato.
Na última tentativa, com um soropositivo, foi agradável e achei que estava apaixonada pelo meu piloto, só que nós soropositivos, temos que ter mais cuidado ainda, temos que fazer sexo com preservativos, o risco de recontaminação é muito mais temido do que o prazer. Complicado... Talvez tenha mesmo que esquecer o sexo e viver em castidade, para o todo sempre, já que fiz tanto. Talvez seja hora de aposentar esse desejo. É difícil, mas tenho me esforçado, até a inspiração foge um pouco ao falar desse assunto... Kkkkkk.
Mas vamos nessa, talvez seja essa minha lição na vida, viver sem sexo. E depois que meu Marido “Cavaleiro sem Cabeça” foi para o além, já sabia que ele tinha encerrado meu ciclo sexual.
É COMPLICADO, já experimentei não dizer nada, sair e adeus. Todavia não funciona assim. Depois de percorrer por esse cenário, o que me resta é aprender outros meios de realização. Não estou em busca de prazer carnal, agora a necessidade vai além do corpo, quero despir minha alma. Se tiver que ter um novo amor, que venha, estou receptiva, estou viva. A AIDS me educa, não me sinto punida por nada, sinto que tudo teve um resultado até positivo, depois que descobri estar contaminada até o modo de fazer e ter prazer mudou, passei a amar e cuidar mais da minha vida, mudei hábitos e sou uma pessoa sossegada. Não gosto mais de sair à noite, não perco minha boa noite de sono, e não abro mão de morar sozinha. Quando meu novo amor chegar, um dia, terá que aceitar essa condição. Quero sim ter meu velhinho, mas cada um na sua casinha ou pelo menos em quartos separados.
Quanta diferença no modo de pensar, me comparando com algumas mulheres da minha idade que mesmo tendo o vírus da AIDS não querem nem saber de nada, continuam na esbornia. Sou temente a Deus, acho que Ele me deu uma segunda chance e quero aproveitá-la tentando agir de modo correto e aprendendo a cada segundo de vida.
Sexo é bom, faz falta e me deixa muito mal humorada ficar sem ele. Peço ao Universo sabedoria para superar mais esse obstáculo e vencer mais essa etapa.

Capítulo 15 - Onde Deus entra nisso tudo?

Desde cedo conheci Centro de Umbanda, Candomblé, etc... Meu avó, pai da minha mãedrasta era dono de Terreiro,Centro de Umbanda e fui batizada por ele. Era muito conhecido o Centro de Umbanda do meu avó, que era separado da minha avó. Lembro que tinha festas e tudo era lindo, adorava ir à casa do meu saudoso Vô Gaspar Luiz. Cada vez que olhava para meu avó via um índio com um cocar enorme. Pouco sei de sua história, mas lembro daquele carinho que tinha comigo.
A adorável mãedrasta, muito vaidosa e sempre preocupada com a roupa que ia usar no jantar tal... Qual roupa do sarava ia ter que arrumar e que o cabelo não podia pegar chuva, porque o permanente encolhia... E as unhas da mãedrasta sempre impecáveis... Acho bonito tudo isso, mas muito vazio. Sempre sentia um vazio, sempre uma vontade de ficar só, fui crescendo e nada de se falar em Deus dentro de casa. Éramos três irmãos eu a mais velha, Alexandre e André.
Nas horas de incertezas observava minha mãedrasta apelar pelos orixás, guias e velas etc.
Meu irmão Ale (tinha uma deficiência nos tendões dos pés) e eu, começamos a desbandar para os programas religiosos que tinham pela manhã, nos domingos dos anos 80, até porque meu irmão era muito dependente de todos nós. Ele andava por todos os lugares, mas muito mimadão, eu o acompanhava, assistindo ao programa dominical, cantando e louvando a Deus.
Só que a escola onde estudávamos foi visitada pela igreja católica, convocando quem quisesse participar da catequese. Na hora fiz minha matrícula e queria começar logo. Levei o comunicado a minha querida genitora, que se recusou a assinar, dizendo que era bobagem frequentar igrejas. Fiquei muito triste e corri para minha tia Dina, irmã do meu pai, que morava no mesmo prédio, mãe dos tarados dos meus primos.
Ela na hora assinou e combinou para eu dizer, que todo domingo pela manhã iria à feira com ela e com essa mentira, poderia participar das aulas sem a mãedrasta saber. E assim foi feito. Fiz todo o curso, porém não fui à formatura, porque minha querida mãe não deixou, mas sei que conclui e isso ajudava meu irmão.
Num belo dia, chegamos da aula e fomos direto para o restaurante onde meus pais trabalhavam. Sempre almoçávamos por lá, depois era pracinha ou SESC, mas nesse dia ficamos em casa, numa quitinete na Rua Maria Antônia 384, e de repente, uma luz apareceu tão suavemente, junto com um perfume inesquecível.
Nós três vimos, meu irmão Ale está vivo para confirmar. Nós três diante daquela imagem suave, clara, que nos falou sem mexer a boca, dizendo que ELE VIVIA, que responderia a qualquer pergunta. Na hora meu irmão André, muito esperto, quis saber como morreria. Todos rimos. Porque motivo queria saber de qual forma morreria? E a luz contou que seria assassinado com tiros no coração.
Meu irmão Ale quis saber como iria arrumar os pés para correr direito. A luz lhe perguntou se queria ser curado e se quisesse, seria curado. E passou a vez para mim. Então preguntei aquela luz, que falava sem mexer a boca, que tinha um perfume suave e penetrante, um som como uma melodia constante, sem sair de ritmo, como seria minha vida. A “Luz que falava sem mexer a boca” respondeu que eu teria um probleminha no sangue, mas que não carregasse isso como fardo. E que eu viveria longo tempo.
A Luz foi saindo lentamente... Nós morávamos pertinho da Praça da República e meu pai comprara um quadro, desenhado a lápis de Jesus e o colocou naquela parede, portanto foi esse quadro que tomou vida e nos falou sem mexer os lábios. Por tudo que é mais sagrado, ficamos falando sobre aquilo por dias e minha mãesdrasta mandou jogar o quadro fora, porque não aguentava mais ouvir a mesma história. Pois bem, jogou o quadro fora e não adiantou absolutamente nada, o quadro ficou desenhado na parede. Minha mãedrasta deve negar tudo isso, porém meu irmão está vivo para provar.
André morreu com seis tiros no coração, por um louco armado, que foi resolver um problema entre as crianças da rua. Meu mano “Dé - o Feio”, como era conhecido, foi morto covardemente por tentar defender as crianças. Sua morte foi manchete em Esteio RS e foi lembrada pelo meu mano Ale no dia da missa do Feio.
Desde que conversei com Jesus encontrei o que faltava para preencher o meu vazio. Tudo na minha vida coloco Jesus (a luz) na frente e no pensamento. Tenho certeza que Ele está comigo em todos os momentos e se aconteceram coisas foram porque eu, somente eu, me afastei da luz. Com a certeza de que sou amada por Jesus e que Ele vive, me alimenta e fortalece, entreguei minha vida em suas mãos, desde que li o resultado do meu exame.
Depois desse fato, os dias foram passando e meu irmão Ale começou a reclamar das botinhas. Foi levado ao médico e todos voltaram espantados, contando o que tinha acontecido. Meu irmão Ale estava curado e não precisou nunca mais usar as botinhas apertadas e pesadas. Fiquei muito feliz por ele. O incrível aconteceu. Os médicos diziam que era um milagre, pois no caso dele, estava condenado a viver sempre de botinhas, era irreversível.
Meu irmão Ale na época não parava de falar do quadro e disse que um anjo tinha salvado seus pés. Hoje em dia é um homem normal e anda bem Graças a Deus e a sua fé.
Portanto tenho comigo uma forma de ver esse Deus. Ele nos deu a vida e liberdade, e tatuou em nossa alma suas leis, sua conduta. Temos a liberdade de escolha, porém somos responsáveis pelas consequências. Não me sinto punida por Deus por ter sido rebelde e ter tido dezenas de homens antes dos meus maridos. Sim, sou responsável por minhas atitudes, não acho justo pensar que estou sendo punida por ter AIDS. Ao contrário, estou tendo uma nova chance de recomeço, existe algo que vai além de tudo isso... Não consigo imaginar que Deus seja mal, perverso e que fique inventando formas de punição a nós.
Somos pecadores e estamos de alguma forma sendo educados, dentro da possibilidade de cada um e suas realidades, nada se perde, tudo tem uma razão. Enquanto à mãedrasta continua com suas crenças, eu respeito e admiro a devoção, só que não é a minha praia. rs rs rs...
Já frequentei vários lugares, conheço algumas religiões, e até pensei em fazer teologia, porém nada de fanatismo, a fé é algo sutil, tem que ser trabalhada, vivenciada, observar os detalhes, Deus é detalhista, a fé não pode não forçada ou induzida. Aprendi a ter liberdade para escolher e acreditar naquilo que quiser desde que seja puro e verdadeiro. O que vem de Deus é livre de preconceitos e tem consciência do todo, somos todos do mesmo lugar passeando por esse mundo, aprendendo que não existe o tal inferno. Em minha opinião o inferno é aqui.
Sim, aqui sentimos fome, medo, raiva, orgulho, dor e se fizermos o mal a outrem, o mal retorna para nós e vice versa.
Dependendo de como acordo, determino meu dia mentalizando que tudo é energia, que não existe esse tal juízo final. O juízo são as escolhas boas ou más que fazemos. A cada situação na vida, se for reparar direitinho, perceberá a força do bem atuando.
Noutro dia fui um pouco áspera com um grupo de senhores que visitam as casas para levar a “palavra”. Pois bem, sugeri as nobres senhoras, que fossem levar a palavra àqueles que estão perdidos nos bares e esquinas da vida, pois quem esta dentro de casa está bem, está amparado pelo destino, tem onde morar e o que comer, mas aqueles que andam pelas ruas perdidos, catando lixo para comer, esses precisam de palavras e gestos de amor e carinho. Deus, Jesus ou universo, busca os fracos, os pobres de alma, desamparados da sorte, os desesperados, etc.
Quando vejo essas igrejas lotadas acho muito legal, mas seria muito melhor se as pessoas praticassem a misericórdia e não somente buscassem ser atendidas em seus anseios. Rezar, orar e meditar para termos sabedoria e humildade, pedir pelo mundo, pelos que sofrem. Não existe uma forma de orar, rezar. Eu saio falando com o vento, com os pássaros, observo o mar, Deus fala comigo através das coisas mais simples que posso imaginar e tudo me convida a celebrar. Poderia ficar aqui falando de Deus por dias meses e ainda assim não conseguiria descrevê-lo. Sinto o corpo pesado, porém a alma leve, tenho coragem de me olhar no espelho, olho no olho. Rss... Quando acordo de mau humor é porque não agradeci ao deitar.
Tenho tanto a aprender, uma vez pensei assim: Quanto tempo perdi na vida de bobeira... Ai então me veio um pensamento ligeiro e perguntei-me: O que você faria agora se não tivesse aprendido por onde andar e o que contaria? E veio de novo esse olhar sagrado da vida, já pensei em ser devota de Assis e trabalhar na Toca. Mas sou mundana, profana e mesmo com um gostinho de que fiz tudo errado, continuo acreditando no bem, sem duvidar... Já vi tanta gente duvidar e quebrar a cara, ou continuar fazendo aquilo que sabe que não é para fazer. É avisado, teima, e toin,oin,oin.
Essa é minha visão, mais ou menos, a respeito de Deus, considerando a margem de erro...
AIDS pode ser uma forma de conscientizar a humanidade a respeito do amor e relações, considerar a fidelidade, enfim para educar e quem aprendeu a lição está salvo, quem teimou e duvidou, quebrou a cara... Vou viver chorando por isso? Sentir-me menor? Cada um tem sua medida, o resultado depende daquilo que se investe! Sei lá, é por ai, me aceito.

Capítulo 16 - A filha revoltada

Minha filha mais velha a revoltada, ensina muito sobre mim. Seu nascimento foi envolvido em muita expectativa de melhor condição de vida e independência. Tive todo o apoio de um Amigo, que me propôs morar juntos em Sampa, pois tinha herdado um apartamento na Rua Augusta e já trabalhava no ateliê da família. E eles fabricavam camisetas, calças em moletom para lojas no Brás, e deve ser assim até hoje, trabalhando com silkscreen.
Ele sonhou com uma família, justamente o que eu quis. Nossas ideias eram de sucesso, ele foi ao Sul, visitou minha família, sempre com dinheiro, só que era negro, cheiroso, lindo, uns dentes, cabelo macio, fofinho, eu adorava seu jeito, sua ginga. Dizia ser de Minas, sua família muito unida me apoiou em tudo, desde quando cheguei em São Paulo sem minha filha.
Mãedrasta tinha preconceito com a cor do Marcelo (era nítido).
Quando conheci o pai de minha filha, conheci esse meu amigo que chamo carinhosamente de Marcelo (Djavan), pois tudo parecia um sonho na minha vida e um pesadelo junto.
Depois que perdi o contato com o pai de minha filha, o “Adotado”, meu único contato indiretamente foi esse meu amigo, que tanto me ajudou naquele momento, confiou em mim. Eu sustentava a casa vendendo camisas, que ele me enviava pelo correio e lhe enviava o dinheiro, assim me mandava mais. Era produto bom, vendia muito, eu falava que era de Sampa.
Tudo combinado, ele mandou as passagens e mais dinheiro para que fizesse uma viagem tranquila, com a que depois se tornou a filha revoltada.
Nasceu um bebe lindo, recebi muitas flores e presentes, foi emocionante. Não tive marido, mas tive amigos, que me davam carinho em todo sentido dessa palavra. Porém a decisão estava tomada: iria para Sampa, morar num apartamento tranquilo, no centro da cidade, na Rua Augusta. Íamos trabalhar juntos, não tínhamos carro, mas tínhamos saúde, disposição e amparo da família dele, que aceitou toda a situação, pois ele queria ter uma família não importasse como e foi tudo dentro dos conformes...
No dia e hora marcados, o taxi da rodoviária esperando as bagagens, mas cadê meu bebe revoltado? Sumiu! A Louca Alucinada, minha genitora havia fugido com meu bebe, enrolada num lençol. Procuramos por toda parte, entrei em cada casa, a bandida tinha fugido com meu bebe.
Fiquei desesperada, gritava igual uma louca pelas ruas e jurei que ia matar a maluca da SALETE. Um corri daqui, um corri dali, o taxi esperando, peguei tudo e fui sozinha para Sampa, porque se ficasse mataria aquela mulher. Minha raiva era tanta que perdi a cabeça, tive febre, passei mal na viagem, tiveram que chamar um médico. Foi horrível! Quando cheguei, ele me xingou muito e me disse coisas horríveis, com toda razão. A família dele passou a me ver com olhos estranhos, afinal se minha própria mãe não confiou em mim...
E por esse motivo perdi a chance de ter criado minha querida, amável, revoltada filha, que admiro por ser guerreira.
Voltei varias vezes para buscá-la, mas sempre acabava em brigas, chantagens, e a guria foi crescendo, ouvindo as piores coisas a meu respeito, só o lado ruim. Hoje em dia ela é toda a Salete, até os enredos em matéria de religião.
É uma emoção reviver essa história, que fiz questão de enterrar, como outras tantas. Não posso odiar minha própria mãe, vocês me entendem? É muito delicado tudo isso...
O tempo foi passando e quando casei, contei logo para o saradão que tinha uma filha de três anos e queria tomá-la de minha mãedrasta. Ele concordou e fomos buscá-la. Fomos corridos de lá com promessa de pragas malditas. Voltamos outras vezes e as tentativas sempre foram inúteis.
A minha consciência nesse sentido está tranquila, Deus acalmou meu sofrimento com muitos argumentos. Deus usa as pessoas para mostrar seus defeitos e corrigir os nossos.
Pedi muito que me desse momentos importantes na vida de minhas filhas e poder viver ao lado delas, se fosse a vontade Dele. Tive essa chance com meu cavaleiro, travando comigo uma luta, se expondo na justiça, nascendo nele um sentimento paterno incrível. E de repente, as duas estavam comigo. Porém essa é outra parte da história, que deve ser contada separadamente, pois há momentos engraçados.
Não criei minha filha mais velha por oposição da bandida da mãedrasta. Só consegui fugir com minha filha de Esteio depois que ela me mandou uma carta, dizendo que a mãedrasta tinha lhe dado uma surra no meio da praça. Virei o bicho, fui lá e sequestrei minha própria filha... Kkk... Deu polícia e tudo! Fugi com ela para o Rio e uns dias depois, o juizado de menores foi bater na minha porta, com homem armado na escolta, fui à justiça e conseguimos provar os abusos psicológicos sofridos pela criança.
Pois bem, éramos uma família grande, o cavaleiro sempre presente em tudo, dinheiro nunca faltou, graças a Deus, para comida, roupas, colégios, natação, cinema, teatros, restaurantes, etc.
Tínhamos uma vida feliz e para minha surpresa, a revoltada, quis voltar para o sul. Reclamava de minha vigilância, sim, pois lá em Esteio a vida era pela praça e com os moleques, sei bem, já passei por isso.
Deus é perfeito e me fez participar do momento que considero o mais importante na vida de uma mulher, que é justamente quando deixamos de ser meninas e passamos a ser moças. Para minha alegria e tranquilidade de alma pude participar ativamente dessa metamorfose na vida de ambas, considero como uma prece atendida.
O que para mim foi um momento de desastre, por não ter tido um acompanhamento adequado, foi meio traumático, tive que trabalhar tudo isso sozinha e estar com elas, nesse momento, foi mágico, me sentia mãe, sabe como era pura alegria foi muito legal.
Aconteceram outros momentos, mas considero esse o mais feliz, gosto de lembranças alegres, e vivemos bem felizes enquanto juntas.
Poderíamos ser muito mais unidas se não fosse a revoltada ter a mente da avó, que não gosta de ser chamada de avó...aff.. Me polpe...
Todavia eu e minha marrenta caçula, que tem um coração doce, é muito realista na vida, temos um papo aberto, conversamos sobre tudo, damos risadas, falamos sobre AIDS, sexo e sexualidade, de igual para igual. Uma vez ela me disse que tínhamos a idade e posições na vida invertidas. Rss...
Admiro minhas duas princesas por serem guerreiras e batalharem por seus objetivos, não tenho preocupação em relação a nada, sei que são cabeças boas. A mais velha andou numas furadas lá pelas bandas de Esteio, mas graças a Deus consegui reverter a situação e, principalmente, ela pediu ajuda, e graças a Deus pude ajudar minha filha.
Seria uma mulher frustrada como vejo tantas por ai, vencidas pela maldade alheia, vítimas de uma sociedade preconceituosa, porém tenho forças para bater de frente com a injustiça, nem que seja contra meu próprio sangue, no caso minha mãe, que foi um péssimo exemplo e talvez por medo que eu seguisse seu caminho, fosse fazer mal a minha filha, fugindo com meu bebezinho, me negando a chance de ter tido uma família e ter sido tudo bem diferente.
A mãedrasta tem um lado positivo na minha vida, ela me ensinou a não ser como ela e o principal é, se hoje tenho a capacidade de perdoar e ser feliz, foi ela quem me ensinou. Tudo tem um lado bom e ruim. Tenho esse hábito de analisar os dois lados de tudo. Tento ser presente na vida da caçula marrenta, e tenho total apoio dela nas minhas empreitadas , temos nossas diferenças, mas considero dentro do comum.
Sou com minhas filhas, exatamente como gostaria que minha mãe tivesse sido comigo.
Renato russo tem uma música chamada “Pais e filhos”, que diz tudo... Queria estar contando uma linda historia, sem tanta amargura. Não posso culpar ninguém, a Salete nem sabe a filha que tem... É uma pessoa tentando acertar, porém comigo ela não terá mais a chance, porque seu preconceito é maior que o amor de mãe e isso é muito triste para ela.


Capítulo 17 - Eu fiz um aborto, não posso acreditar nisso...

Logo no inicio do casamento com o Saradão, fiquei grávida, só que não estávamos indo bem, tudo era motivo de brigas e ofensas. Como era jovem e não tinha a menor ideia do que viria pela frente, estava decepcionada com o casamento, afinal já sabia a besteira que tinha feito.
Nós éramos totalmente diferentes, casei com o Saradão para sair de uma situação e ter condições de ter minha filha comigo, mas quando dei por mim já estava grávida e nada poderia ser feito, a não ser um aborto e foi exatamente isso que foi proposto por ele, e eu aceitei. Não estávamos nos entendendo, não havia nenhuma chance de diálogo, era isso o que nos achávamos, e assim foi feito, abortei com quatro meses de gestação.
Não tínhamos nenhum diagnóstico de AIDS naquele tempo. Se naquela época soubesse que estava contaminada jamais teria tirado o feto.
Que situação, não desejo isso a ninguém. Como foi terrível aquela sensação, demorei muito tempo para me repor, e depois de assistir a todo aquele drama ficamos mais amigos e passamos a nos entender melhor. Até hoje não entendo porque fiz aquilo. Era casada, porque interrompi a gestação?
Pergunta que só tem uma resposta: à ansiedade não deixou dar o devido valor, fui fútil, mas naquele momento era tudo que podia ser feito, estava decidida a ir embora do Rio, e jogar tudo para o alto. E quando ele notou que estava falando sério, reverteu à situação e fomos aos entendendo. Contando assim, até parece que foi fácil, mas não foi, tive um quadro depressivo e fiquei à base de remédios, que estupidez, quanta animalidade... Poderia ter sido tudo tão diferente.
Mas essa é a verdade. Acho que minha história não estaria sendo contada corretamente se deixasse esse fato escondido. Fui fraca, fui imatura e não me perdoo por isso. Para uma mulher é muito mais que simplesmente tirar um feto, vai além de nossas entranhas. Fazer aquele aborto foi muito além, tocou o fundo do meu espirito, fiquei muito tempo sem me olhar no espelho, fiquei desestruturada. Tirar um ser, matar foi demais, o Saradão acompanhou todo meu sofrimento e depois de tudo resolvemos ficar juntos, não foi tão fácil assim me reconquistar, ele sofreu um bocado, nosso casamento foi um total ato de loucura, tinha essa opinião e ainda tenho.
Depois de algum tempo fiquei grávida novamente, dessa vez com gravidez de alto risco e aos oito meses descubro-me com HIV, muitos diriam é Deus te dando uma lição.
Sinto muito, mas Deus esteve comigo o tempo todo. O que fiz, considero um ato covarde, é degradante para nós mulheres, nada justifica aquela atitude, fui eu quem me puni, Deus esteve comigo o tempo todo, mas eu larguei Deus de lado e não confiei, errei feio.
Tenho absoluta certeza de que errei, e assumo, por mais difícil que fosse, deveria ter encarado. Mas agora é tarde. Ficou a dor, o remorso, o inconformismo.
Já me perdoei, (acho que não), foi muito amarga àquela experiência, fico pensando como tive coragem, não sou contra o aborto no caso de um estupro, mas na minha situação, sinceramente fui covarde e de pensar naquilo tudo, fico com vergonha, triste e muito perdida espiritualmente.
Abortos são de uma violência ao nosso corpo, que aniquila muitas mulheres tentando serem mãe e muitas abortando a 3X4.
Aquela sala gelada, aquele sono pesado e quando acordei minha barriga vazia, só tinha ar. Chorei muito... Como podem essas mulheres fazer aborto a toda hora, e se for liberado o número de aborto vai triplicar. Acredito que deva ser muito bem pensada essa questão, porque abala o psicológico e se não tiver uma estrutura emocional forte, derruba, da para enlouquecer.
Graças a Deus apesar de ter sido uma gestação de alto risco, minha filha nasceu no meio de um turbilhão de sentimentos. Tem saúde e sabedoria. Quando ouço essas mulheres falando de aborto como se fossem ir ao cabeleireiro, fico espantada, ''elas'' fazem praticamente sem dó nem piedade.
Sem contar os males no corpo, existem os males na alma. Triste é ver uma mulher depois de um aborto, por favor, não estou levantando nenhuma bandeira, cada uma sabe de si, porém se puderem evitar o aborto evitem, usem camisinha, pílulas, não cometam essa agressividade contra seus corpos, a não ser um caso de extrema necessidade, como uma doença ou estupro, fora isso existem meios de se evitar uma gravides indesejada. Conto esse fato porque jogo limpo, caso contrário poderia ocultar, mas tenho que ser sincera, e não posso ignorar algo que marcou minha vida para sempre, é um arrependimento que peço perdão a Deus todos os dias.


Capítulo 18 - Vizinhos... e que vizinhos!

Sempre fui muito decidida e um tanto sincera, e quando mais jovem impulsiva.
Se algo não me agradasse simplesmente caia fora.
Nunca fui de esquentar cadeira, sendo assim fazer amizades é fácil, mas mantê-las é algo muito difícil. Além de perder contato com pessoas que conquistei, ora moro aqui, ora moro acolá, os vínculos enfraquecem e se perdem por ai.
Vizinhos, sempre tento manter a política da boa vizinhança, ser amigável, porém algumas pessoas confundem simpatia com liberdade e libertinagem. Há pouco tempo sofri com um casal de gays (não sou homofóbica), mas há certos tipos de pessoas que confundem tudo e passam dos limites.
Moro numa casa alugada, num lugar tranquilo. Esses vizinhos vieram morar aqui na casa ao lado, pois bem, troquei algumas palavras, emprestei fio, escada, açúcar, e outras coisas. Ficaram sem luz, emprestei minha energia para eles, mas eis que meus vizinhos queridos começaram a chegar às três horas da manhã todos os dias, tudo estaria bem se não fizessem tanto barulho.
Num belo dia, ou seja, madrugada, lá pelas três da matina, com toda aquela rotina de bagunça, não me contive, e muito ironicamente perguntei a um dos moradores:
- Hoje vai ter churrasco ai vizinho?
Ele respondeu: Não, por quê?
Rapidamente contra ataquei: Porque as galinhas já chegaram! Kkkk
Para que fui usar esses termos? Talvez se tivesse perguntado de outro modo, enfim, os rapazes se zangaram e queria me matar. Eu sozinha dentro de casa, meus pets dormem na varanda, e de repente os amáveis vizinhos acompanhados de suas amigas risonhas e seminuas, começaram a tacar pedras na varanda, e quando vi que uma pedra quase acertou minha pet de 14 anos, a Milk, que ficou mais doida que todos eles juntos e tive uma atitude nada aconselhável para uma Senhora como eu. Estava de camisola, aquela com flores e estampas, bem vó mesmo. Enfiei um chapéu para não pegar sereno e um salto alto para manter a classe, e encarei os bêbados e drogados, que me ameaçavam o sossego. Pequei um cabo de enxada e sai porta afora, só pedindo ajuda aos meus amigos espirituais e com coragem disse aos maluquetes, que iria cobrar por cada vidro quebrado e se acertassem minha cachorrinha, todos ficariam sem mãos e braços. O sangue quando sobe, não meço palavras e naquele momento tive que apelar para São Jorge. Tinha um quadro do Santo Guerreiro na parede da varanda. Foi só eu dizer isso e dois rapazes caíram, e não tinham mais forças, a bebedeira era tanta que minha sugestão funcionou rápidamente.
Sai de salto alto, chapéu e camisola de florzinha, armada com um cabo de enxada e muita coragem, passei por todos eles e encarei as mulheres, que não eram tão mulheres assim. Sei que passei pelos oito rapazes sem nenhum deles conseguir me segurar, criei forças que nem eu sabia que tinha, fui ao DPO, contei o ocorrido e os vizinhos maluquetes, tentaram inverter o jogo dizendo aos policiais, que eu fazia tráfico e fumava drogas. Dei total liberdade aos oficiais que examinaram meu canto e meu jardim e nada encontraram, e não poderia ser diferente.
Os vizinhos maluquetes levaram uma bronca dos policiais e a recomendação que cuidassem de suas vidas, deixando de me incomodar. Adorei aqueles dois PMS, foram de uma educação admirável. Os vizinhos na semana seguinte resolveram fazer mudança, e estavam fugindo sem pagar o que me destruíram: duas janelas com vidros quebrados e o portão totalmente quebrado, fui atrás dos malandrinhos e cobrei os reparos, o portão eles consertaram, e os vidros nem fiz tanta questão uma vez que eles estavam indo embora.
Não queria que tivesse chegado a esse ponto, mas às vezes temos que descer ao mesmo nível, de pessoas para sermos respeitados.
Todos que me conhecem sabem que sou da paz, se posso ajudar estou dentro, mas atrapalhar nunca. Não tenho nada contra a opção sexual de ninguém, cada um é feliz como lhe convém, mas exijo respeito acima de tudo...
Tenho outro caso com vizinhos de quando morei na Rua dos Tatus, que foi de parar o trânsito, tudo pelo mesmo motivo: barulho fora de hora. As pessoas têm que aprender a respeitar limites para não terem que passar por esses constrangimentos. Horário do silêncio existe para manter a ordem, e não é porque aqui é praia do interior que devemos chegar e agir do jeito que se quer. Somos moradores e não veranistas. No verão as casas estão cheias, as crianças de férias e visitas, até se tem mais tolerância, mas mesmo assim é necessário manter a ordem, sou praticamente uma idosa indefesa e sozinha. Rs...
Isso foi o que aqueles simpáticos rapazes pensaram: Ela é só, jamais vai parar a gente... Hahaha! Sinto muito aos arruaceiros de plantão, na minha razão crio forças e encaro, caso contrário, que espécie de mulher seria eu, o que valeria ter vivido tantas experiências desagradáveis na vida, para ser esnobada por jovens que recém estão saindo das barras da saia de suas mães...
Respeito é uma estrada de mão dupla.
Ultimamente tenho passado por outro lado da situação, agora o vizinho é um idoso muito folgado. Demorei a entender a sua malandragem. Por que será que alguns idosos querem impor suas ideias sem dar chances aos outros de participarem, como que se vivessem um mundo só deles. Não é bem assim.
Esse amável vizinho sabendo que sou só, quis dar uma de machão e vigiar minha vida. Estava tratando-o com toda educação, mas achou que tenho cara de babaca. Ele aceitou ficar com meu fio de TV a cabo, porque tendo internet não assisto TV, não gosto. Ele malandramente ficou com o cabo e não pagou por seis meses, disse que não sabia onde pagar e a empresa que presta serviço veio cobrar de mim a dívida, relações cortadas. Que negocio é esse?
Quando se trata de vizinhos tento manter distância, mas sem ser arrogante, não dou tanta conversa e evito troca de favores, sou sozinha e as pessoas só ficam vulneráveis a certos tipos de situações, e sendo mulher todo o cuidado é pouco...
E se sabem que sou HIV+, ai querem julgar, inventam histórias, ficam às espreitas, vigiando minha vida.
Acho tudo isso engraçado, mas até certo ponto, desde que não perturbe o meu sossego. A verdade é que quem gosta de mim, gosta mesmo porque sou um tanto chata. Barulhos, músicas em alto volume, e bebedeiras não é a minha praia, gosto de pessoas educadas e não sou do tipo que recebe visitas ou vive com a casa cheia, sou tranquila. Ter HIV implica em manter um padrão de vida saudável, e o sono faz parte desse processo...


Capítulo 19 - Pois é, pode não acreditar, mas fiz um filme com a Andrea Beltrão

As lembranças vão brotando das idéias. Em 2008 se não estou enganada, estava eu na fila do posto de saúde Heitor Beltrão, eis que observo uma agitação, um murmurinho no final da fila, fui atendida, e ao sair continuava o murmurinho
Deixei a curiosidade me dominar, entrei na fila do murmúrio e indaguei ao primeiro a minha frente, amigo para que essa fila? Bem rapidinho ele disse para ser figurante de um filme, eles estão querendo magrelos, negros e tatuados. Meu perfil encaixou, fiquei na fila, fiz a inscrição tirei foto de lado de frente, de todo jeito. Passou uma semana me chamaram, marcaram o lugar, e fui eu.
Novata no mundo artístico acha que tudo são flores. Fui encantada com tudo, chegando no lugar era um presídio, o Frei Caneca. Foi o primeiro choque. Pensei: é pegadinha só pode. Mas confiante como sempre, rss... segui sem pensar em desistir, agora era questão de curiosidade exagerada, estava atiçada...
Um lugar enorme deserto, horrível, tudo sujo, quer dizer até chegar ao local de trabalho, pois bem. Chegando por lá já me deram uma roupa estranha e fui seguindo o fluxo.
Trabalhei no primeiro dia, segundo, tudo muito novo pra mim, e nada de eu entender que raio de filme é esse. Ficava procurando entre todos, quem eram os atores, de repente do meu lado a atriz Andrea Beltrão, tão suave, no ponto zero da atriz, foi muito legal. Ganhei 100 reais por dia, comida, bebida, água frutas, sucos, café, tudo do bom. Dentro do presídio tiveram várias cenas que participei, mas depois conto os detalhes. Porém teve uma cena em especial, onde as mulheres faziam uma fila simulando a entrada da visita no presídio. Eis que estava um sol tremendo e a inteligente pessoa que vos escreve, carregava uma bolsinha Chanel de palha, com minha inseparável garrafinha de água, e alguns documentos, celular, e segurava um guarda chuva para proteção do sol, mantendo minha postura de figurante numa fila, estava indo muito bem até passar por mim uma mulher responsável pelo figurino e mais um monte de cargos que tinha no crachá, acabando de vez com minha elegância e estilo, ela perguntou:
- Ei colega tu está entrando num presídio minha querida, tem que ter bagagem!
E sem entender nada de nada:
- Mas como assim estou entrando num presídio?
Ai comecei a ouvir as colegas da fila, dizerem o que entra no presídio pelas bolsas e pelo corpo das visitas. Fiquei em estado de espanto. Sem dar pinta de não saber nada, inocente, segui pela fila, agora cheia de bolsa, sombrinha e chapéu, para compor o personagem da fila de entrada da visita no presídio. Entreguei-me ao personagem, lembrei-me das mulheres contando onde guardavam outras coisas para levarem para dentro do cárcere. E foi assim, carregando bolsas, de chapéu sombrinha e com as perna abertas ao andar, tive meus 15 minutos de fama, todos riram muito e levei uma chamada do diretor dizendo que o filme não era uma comédia. Sem graça fiquei, mas deixei minha marca de boa atriz... kkkk...
Dia e hora marcados para a estréia convidei filha, amigas da filha e uma vizinha da época, marido Cavaleiro estava vivo em tratamento, fomos assistir minha ''estréia'' no cinema... kkkk...
Não apareci em nenhuma cena, somente meus cabelos atrás de Andrea Beltrão, na hora em que ela vai falar com a advogada do filho na porta
Fiquei tão triste, estudei um jeito de processar o diretor e todos os responsáveis, por falta de exibição da imagem, rss... Agora veja, me pagaram na época 100 reais por dia, foi um dinheiro justo, paguei alguns livros da faculdade, fiz compras, paguei contas, e não me colocaram em nenhuma cena. Fiquei sem entender, é claro que fui chacota para o mês todo né...
Minha participação no filme se resumiu em um pedaço da minha cabeça atrás da atriz principal, na entrada do presídio, na cena em que ela fala com a advogada do filho.
Assim foi minha estréia artística no cinema, um pouco tímida, mas o importante é que estive lá, embora seja difícil de provar... kkkkk...


Capítulo 20 - Participar de um evento me rejuveneceu

A coragem que muitos dizem que tenho, e elogiam, isso é viver com HIV/Sida, essa coragem tem que ser real, cada um na sua potencialidade, no seu grau de conhecimento e condições culturais, economicas, etc.
O espírito não cansa, quem cansa somos nós, humanos de carne e osso, nesse mundo de curiosidades e gostos diversos e se cada um pensar no outro, conseguimos frear a AIDS.
Achei que estava arrasando, ms estavam me arrasando, rss. Estou cheia de novidades: Participei de um evento promovido pelo Grupo Pela Vida – RJ, um encontro nacional de pessoas vivendo com AIDS no brasil, ou seja, aquelas que botam a cara mesmo e falam de AIDS, quebrando preconceitos, tirando dúvidas, aconselhando de alguma forma, ativo na causa, voluntários ou não, a uniào faz a força...
Considero -me ativista há mais de 20 anos, pois desde que me descobri com HIV, sempre fui de papo aberto, repassando informações, aconselhando . Perdi muitas pessoas queridas, amigos, uns íntimos, outros nem tanto, mas quando participamos de um encontro como esse, cria-se um vínculo mesmo sem querer, e ficamos na torcida de nos vermos sempre bem novamente...
Uma imensa família que se quer bem, uma família amável e que respeite o ser humano com HIV/Sida é algo imaginável para mim... Sofro de saudade e solidão, mas não procuro minha familia, para não sofrer preconceito, nem ser humilhada.
Sou mulher de 45 anos, e independente sempre fui, e mesmo assim, sou vista como puta,viciada, safada, promiscua, tudo que não presta eles acham que eu sou... rss. Isso por não me submeter a caprichos religiosos da fanática mãedrasta.
Minha religião é a liberdade. Tendo liberdade o sujeito tem a conexão exata de como viver nesse planeta, pois precisa haver o silencio, para se ouvir o que a alma diz... Parece dificil, mas não é. Só consegue ouvir o próprio silencio quem não tem medo da verdade. Li isso em algum lugar...
Sou uma voluntária ativista, multiplicadora de informações, luto contra o preconceito e a discriminação ao soropositivo, a Sida/DST, participo de algumas palestras e algumas atividades no programa DST/Sida de onde sou assistida. Escrevo para meus amigos se deliciarem com minhas aventuranças... rss.
Pretendo fazer um curso de teatro e quero voltar para as salas de aula, quero fazer o teatro do oprimido e um curso, que ainda estou em dúvida, mas quero estudar, sinto falta, pois adoro aprender, aprender e aprender...
Nesse meio de ongs e ativismo há muito jogo de interesses e narcisistas, poucos são os que trabalham e são ativos, no monte só querem propaganda. São ativistas ali na ocasião, saiu dali volta sua vida, discreta, toda secreta, que espécie de ativismo é esse? Não lutar pela causa é vestir a camisa e sair em campo, mostrar a cara, usar a voz dia a dia, não se sai de um campo de batalha sem o fim da guerra, a luta é ardua, reconheço, e as vezes dá vontade de chorar, só pedindo para encontrar um abraço amigo...
Contar uma história inventada é neutro, mas contar minha própria história mexe comigo. É como se tivesse tirado um peso de minhas costas. Esse contar está nascendo junto com uma profunda vontade de entrar de corpo e alma no ativismo, agora com mais base e apoio.
Esse tempo tem sido de novidades a começar pelo evento que participei no Rio, que me deu mais força e animo. A luta é ardua, mas é por uma boa causa.
Pessoas de varias partes do Brasil se encontrando, debatendo temas, e mostrando propostas e trabalhos de ongs, apoios e projetos.
Foi muito enriquecedor em todos os sentidos, participei o máximo que pude, eram muitas atividades.
Rever amigos de outras épocas, fazer novos contatos, ter idéias, trocar experiências. esse é o motivo, essa é a razão.
Fiquei muito bem, foi um evento de três dias e para quem nunca mais frequentou os meios sociais foi o evento do ano, rssrsr. Ficamos num hotel, no centro do Rio, na avenida Rio branco, tudo em obras, então o melhor era andar até a Praça XV.
Recebi ajuda de custo, hospedagem, alimentação, foi um luxo só...
Dividi meu quarto com um dos garotos da organização, achando que estava abalando, ele me presenteou com um saco de mangas, o fdp me chamou de feia por meio frutífero.
E fiquei toda feliz, até uma das moças me dizer do que se tratava: as bonitinhas ganharam maças, estrelinhas e as feias ganharam mangas, fiquei sem ação.
Nunca esquentei minha cabeça com feio ou bonito, sempre fui bela e nem gostava de ser admirada nos lugares. Porém continuo do mesmo jeito, alegre e sem vergonha, livre, mas as pessoas confundem, achando que sou idiota. Sou e sempre serei eu mesma. Esse é meu jeito, nem ligo para esses detalhes de beleza, sou assim meio largada, às vezes arrumada, depende do meu estado de espirito do dia... rss.
Enfim sai do hotel com peso extra que eram das mangas, mas feliz porque ao menos ganhei algo, rssss...
Encontros como esses me faz lembrar pessoas que já partiram, pessoas que desistiram da vida e outras que se perderam. Somos uma família, estar junto nesses encontros significa formar parcerias e participar da vida do outro como parte da minha. É legal essa troca, somos solidários uns com os outros.
Jovens em grande número, gostei de ver a galera participando sem preocupação, mostrando a carinha, levantando bandeiras, vestindo a camisa, parabéns a moçada é isso, vamos a luta contra o preconceito em busca de melhorias e direitos.
Sou muito agitada e no meio de tantas pessoas fico um pouco mais agitada. Tentei manter a calma e ser mais pé no chão possivel.
Ao mesmo tempo na minha casa, minha pet de 14 anos estava agonizando, pois o tumor que foi diagnosticado aumentou e ela então com os cuidados da minha filha, que me mantinha informada de seu estado e a gatinha com tres filhotes dentro da gaveta do armário . Imaginava a situação da casa, porém não me atrapalhou, relaxei e curti. Deveria ter curtido mais, mas é assim mesmo, foi bom e o próximo será bom também.
Sendo assim minha pet de quase 15 anos, a Milk, por ser toda branca, nos deixou e agora somos eu, a Mel e a gatinha com seus filhotinhos lindos e sarados.
Já pensei muito e não quero mais ter cachorro, vou ficar com a Mel e a gatinha. Já teve época de ter cinco cães comigo. É muito gasto de dinheiro e de tempo e as vezes quero viajar e não podia. Arrumei varios cães que encontraram seus donos, outros fugiram, outros tantos morreram. É muita despesa, infelizmente é mais que posso fazer.
Fico triste quando vejo alguns mortos a beira da estrada, rezo e tento orientar, é uma questão de responsabilidade social. As pessoas tem que cuidar de seus pets.
Em algumas situações fico sem saber o que fazer, fico estressada e não é por ai, tenho uma pet amável, que me veio com machucados de um atropelamento e está comigo há dois anos, doce e muito boazinha, é a Melela. Foi a única que a Milk aceitou, todos os outros ela brigava e brigava feio. Era brava , como eu, kkk... Cão que ladra não morde, mas às vezes morde sim, rss.
Vou terminando por aqui, tenho que tentar fazer o padre Fausto da Igreja de Unamar a aceitar a proposta de ter uma pastoral da AIDS, aqui em Tamoios. Depois conto como se resolveu a questão, a não ser que, por ter tantas igrejas nesse lugar, esteja sendo proibido falar de camisinha. Será que evangélicos, católicos e macumbeiros não fazem sexo? Não tem filhos, sobrinhos? Eles não pensam no Mundo, pensam só neles, sinceramente não entendo algumas coisas. Mas para que entender tudo, deixa o tempo surpreender... Vamos nessa. Sempre tem uma barreira e o propósito é romper as barreiras...


Capítulo 21 - Fazer parte dos excluídos dói

Contar minha história, é necessário que seja por inteiro, ao contrário seria invenção. Procurar um trabalho para um soropositivo é uma história a parte.
Veja bem meu dilema: aos nossos olhos de contaminados e impulsionados pelo entusiasmo de ONGs e pessoas relacionadas, saímos do campo de oportunidades em busca de uma chance, traçamos metas e queremos atingi-las.
Por um lado podemos fazer de tudo na vida, estudar trabalhar etc. e tal, muito bonito na teoria, longe de ser realidade vivida pelo menos por mim, mas devem existir aqueles que dão certo e ou tem ajuda de alguém. Porém comigo tem funcionado dessa forma.
Preparei currículo, me enchi de coragem, animo e boa vontade, disposta a encarar tudo que viesse... HÃ!! Lá me fui campo afora, começa que oito horas de trabalho, vou ser sincera não aguento, mas a maioria das empresas tem seu quadro de oito horas diárias com uma hora de almoço e muitas nem tem hora de almoço. Como poderia tomar minha medicação trabalhando o dia todo, já não dá, pois bem, então tento entrar como deficiente, afinal para deficientes são seis horas diárias, seria perfeito. Mas na realidade ninguém emprega um soropositivo, mesmo o médico dando laudo e informando que sou assintomática, não adianta, eles não consideram. Pois bem, se digo que tenho HIV, não me querem nem como cliente, quem diria como funcionária, ai tento não dizer nada, estou agindo de ma fé. Aff...
Triste mas é realidade. Fui então ao INSS tentar me aposentar, tenho esse direito, direito negado. É desesperador, viver assim.
Por um lado sou considerada doente, por outro lado apta a atividades, porém com restrições, mas o que fazer? Ficar sem trabalhar não posso, tenho tributos, preciso então pedir ajuda a Deus, só Ele, porque está complicado. Muitos acham que tenho vida mansa, sim comparada a um tanto de pessoas que precisam submeter-se a caprichos alheios para o sustento, muitas vezes até com filhos e ou familiares adoentados...
Estou pensando seriamente em pedir ajuda para meu Tio Rico, quem sabe, a situação está complicada. Imagino que resposta terei, mas vou tentar mesmo assim, já levei tantas portas na cara, mais uma, menos uma, seguirei confiante.
Vejo tantas covardias, que dá uma vontade de sair mundo afora e virar andarilha, sim agora entendo muitos andarilhos não suportam essa pressão, tanto da sociedade que te julga por não ter um trabalho, um carro um telefone, uma bunda ou uma cara bonita e jovem...
Estou muito triste e decepcionada, perceber que faço parte dos excluídos dói...
Mas talvez esteja indo pelo caminho certo, dizem que o caminho fácil demais não tem valor, mas por que tudo tem que ser difícil para ser bom?
Que modo de pensar opressor, sonho, e vou continuar sonhando esse direito ninguém me tira, se estou certa ou errada só o tempo vai mostrar.
Já chorei, já ri, já me desesperei e nada aconteceu, talvez seja a hora de não agir e confiar nessa FORÇA MAIOR que me dá vontade de realizar coisas aparentemente impossíveis, deve ser essa a razão porque devo lutar, sempre acreditar mesmo que tudo seja contra. Às vezes cansa, mas ficar parada me adoece, mata.
Longe de me fazer de vitima, não gosto de melancolia e de fracassos, já basta ser julgada por ter HIV, se deixar me abater por essa massa chamada sistema, me detono e perco minha identidade, coisa que já perdi para a AIDS... Não quero parecer derrotista, mas ando meio pensativa a respeito disso.
Tentarei minha graduação, considero importante, é uma oportunidade que meu AMADO BRASIL esta me dando poder estudar pelo fies... Ocupar a mente para não ficar doente, essa é minha filosofia atual. Sempre agradecendo o que tenho, pouco para alguns, mas de GRANDE VALOR para quem teve que aprender tudo sozinha. Às vezes me acho forte, mas existem momentos que me vejo tão fraca, tão sonhadora, tão fora da realidade. Fora da realidade imposta pelo sistema, que tenta fazer que todas as pessoas sejam iguais e pensem todos da mesma maneira, isso é decadência em minha opinião, mas quem sou para querer mudar regras?
Vamos nessa.. Ouvi uma vez essa frase e nunca mais esqueci.
O MEDO E A FÉ NO MAL... Então, pensarei no bem que o mal não vem. Bom Ano para nós, muitas realizações, saúde e paz. Sorte minha ter esse cantinho para anedota.


Capítulo 22 - Aprendendo a me divertir sozinha... kkkk

Um belo domingo. Primeiro belo domingo do ano de 2015!!!
Sem água para encher a piscina de plástico murcha num canto da senzala. Sem a companhia de pessoas, mas Mel e a Gatinha da vovó são fieis observadoras de minha pessoa, todos os meus movimentos são acompanhados como presentes para elas.
Nunca me sinto sozinha, sou amada por seres tão especiais, tão ligados a uma parte do mundo que eu desconheço, gosto de tê-las comigo. Mel está deixando de ser tão moleca, está mais dona do lugar, late com menos frequência, observa mais, e a Gatinha da Vovó, essa é inteligente e com muita coragem.
As duas são amigas, cão e gato, inseparáveis.
Mas preciso sentir o silencio da minha alma, preciso visitar meu lugar secreto, ver minhas próprias pegadas, ouvir o silencio que minha alma sente.
Visitar meu lugar secreto me leva a outros lugares. Deixo-me ir e resolvi passar algumas horas na praia, que nesse primeiro belo domingo do ano de 2015 estava lotada e havia me esquecido desse detalhe... Tolo detalhe.
Só que dentro do meu mundinho, estava tudo perfeito. Para não haver mais atritos pessoais numa data tão importante, num belo primeiro domingo do ano, árdua tarefa manter-me bem humorada no auge de uma crise de TPM, acompanhada de cólicas, enjoos e etc. e tal...
Para encarar aquele belo domingo, na areia da praia, só de barraca e foi ai que começou o dia mais bonito que passei comigo, tentando me ver como naufraga cercada de tantas pessoas sem entenderem absolutamente nada do que estava acontecendo.
Providenciei uma esteira dessas rústicas vendidas em secos e molhados, e armei meu camping alternativo muito aconchegante, passando horas agradáveis com o mar, que naquele momento devia estar achando no mínimo engraçado aquilo tudo, e pude me conhecer um pouco mais. O ser humano cria seu próprio céu e inferno, o que foi por alguns segundos motivo de impedimento para que pudesse curtir o momento, que era a falta de uma barraca, improvisei uma, e logo depois outras pessoas fizeram o mesmo.
Estavam no sol, curtindo minha ideia e resolveram copiar e foi muito legal, poder sentir que estava ali, estavam me vendo, e não me preocupei com nada e quando dei por mim já estava criando o clima naufraga, com música, salgadinho, água fresca e uma leitura. Mandei embora a TPM, o mau humor e os temores, que ser mulher me causam às vezes.
Nesse momento só meu, onde desfruto do desprazer da dor, de tudo que esta velho o meu corpo joga fora, solto, deixo me levar, e se tiver que dançar, danço, canto, sou livre, nasci livre, não uso drogas a não ser meus ARTVs, que não tem efeitos alucinógenos. kkkk.
Sou feliz ou triste, na mesma proporção, procuro manter um padrão vibratório positivo, vigiando meus pensamentos, cólicas, enjoos, dores de cabeça mexem um pouco com meus chacras, algo momentâneo 4 a 5 dias, logo volto ao positivo.
Não alimento a dor e quando ela vem me distraio com qualquer outra coisa dentro do meu contexto de expulsão. Terapia criada por mim. Acreditem, na minha casa não tenho remédios para dor. Estava observando esse detalhe e fiquei muito feliz comigo, não alimento dor alguma, e o mais incrível e que esse comportamento e automático. Amo-me, adoro-me, mesmo pagando mico na praia, que naquele momento deixou de ser mico e passou a ser uma gostosa aventura, onde estava tentando encontrar meu rumo, meu porto. Na verdade nem o Wilson apareceu, mas mesmo assim curti muito meu primeiro belo domingo do ano de 2015.
Sozinho só é aquele que não se ama, e que não gosta de ouvir o silencio. Tudo bem que é muito bom ter uma agradável companhia, mas se não for possível já me basto.
Renovada... Vem a noite com a lua tão cheia quanto minha vontade de viver e aprender, mais uma dose de remédio, amanha é outro dia.
Mas o outro dia não chegou tão perfeito assim. Mas já passou. Apenas um susto. Mas vale lembrar: boca é assunto muito sério.
Estou fazendo um tratamento odontológico e numa das visitas ao consultório, tive uma noticia assustadora: estou com uma mancha escura na boca. O modo como os profissionais nos comunicam agravam mais ainda a situação, terrível. Fiquei em estado de alerta, meio desnorteada, sigo em busca de outra avaliação que foi categórica, temos que observar com cautela, com atenção.
Foi o suficiente para que ficasse alguns dias com insônia, sem querer saber de nada da porta para rua.
Porém a confiança no Bem e na Paz, nos dá ter confiança no melhor, no bom, numa difícil tarefa de driblar os maus pensamentos.
A doutrina exige muita força de vontade. Disciplinar a mente ée algo desafiador, com resultados surpreendentes, a longo, médio e curto prazo. O momento foi aquele, o grande teste de doutrinar a mente sobre impulsos e tendências, aparece de repente um ex, cheio de mais intenções e com esse abacaxi nas mãos, seria um prato cheio para a fuga, (no sexo, nos goles de cerveja), fui forte e neguei tal companhia.
Estou aprendendo a me valorizar, me respeitar, graças algumas dicas de um amigo especial que tenho, demora a aparecer, mas quando aparece sempre traz boas novas esperanças, através de palavras doces e motivadoras.
Caminho confiante, farei alguns exames, e vamos nessa.
Nada irá tirar minha vontade de lutar, viver e levantar tantos outros que estejam por voltas e que se deixam arrebatar por obstáculos surpresas como esse que acabo de contar.
A música é meu aliado para manter calmo o pensamento e manter o foco, a contar pelo canto dos pássaros que especialmente hoje estão inspirados.
Confio, acredito e enfrento o que for preciso para continuar desfrutando essa maravilha que e a VIDA!


Capítulo 23 - Pareço homofóbica... Mas a história vai além

Com clareza quero desmentir aqueles que me chamam de homofóbica, vou explicar o que acontece. Tenho duas filhas uma de 23 e uma de 28 anos, pois bem são motivos de orgulho, não me causam problemas, cada uma cuida de sua própria vida. Independentes levam suas vidas como querem e gostam.
A primeira vez que sai com minha filha mais nova para uma aventura no Sana,
Tive uma surpresa, mantive o equilíbrio, mas minha real vontade foi de correr fugir me esconder, vontade não realizada, segurei firmes meus pés no chão, e na hora me vem àquela voz sutil aos ouvidos, ser feliz só isso que ela quer.
Continuando a narrativa, estávamos num grupo grande, descendo à ladeira a procura de um lugar para almoçar, seguindo a frente fui observando a moda riponga e admirando tamanha beleza daquele lugar, curtindo a paisagem, livre de pensamentos de malicia, observei minha filha sempre de mãos dadas com uma de suas amigas. Mantive a curiosidade e continuei feliz.
E ai durante aquela agradável aventura, novamente vejo minha filha de mãos dadas com a tal amiga. Então olhei para minha menina, nem tão menina assim, e fiz aquela cara que mãe faz, e que filhos conhecem bem... kkkkk.
Ela olha para mim e disse: Mãe você ainda não entendeu? E tentando não querer entender, agi como se tivesse entendido tudo e continuei curtindo o passeio.
Daquele momento em diante me perguntei isso está certo. Cheguei à casa, confesso tonta, o mundo girava tão rápido, as horas passaram tão rápido, fiquei um tempo muda comigo, não pensava, só lembrava daquela frase... Você ainda não entendeu?
Não... Não tinha entendido nada, em qual momento havia acontecido e como não havia me dado conta da sua preferência. Que espécie de mãe sou, que não tinha percebido nada.
Deixando todas as perguntas de lado consegui, por instantes ser neutra e fui pesquisar como lidar com o assunto. Foi então que aprendi uma lição para toda a Vida. Sim minha bebezinha, cresceu e tem suas escolhas. Quem não cresceu fui eu. Fui buscar em vários meios como lidar com o assunto, sexualidade, homossexualidade. Sim minha ficha estava caindo, minha bebezinha, agora gostava de meninas. Fiquei neutra não podia julgar discriminar, ignorar... confesso foi um momento delicado.
Mas prefiro verdade exposta do que meias verdades ocultas, e suas consequências geralmente são desastrosas. De repente apareceu na minha frente uma mulher falando de sua filha e o assunto era o mesmo, pura semelhança, era a Gretchen contando sobre sua experiência com sua filha Tamy se não me engano, num canal de TV a cabo, ela contava o quanto se espantou com a declaração de sua filha a respeito do assunto.
Não havia culpados inocentes, não era um premio nem punição, simplesmente uma escolha, um gosto uma tentativa de ser feliz, como noutros tentamos a todo o momento.
Calei meu coração e torcendo para que meu bebê seja feliz, abracei beijei e disse o que quero é vê-la feliz, foi então que começou a segunda parte do ''drama''.
A avó materna de minha bebê, se virou contra mim, acusava-me de ter sido a causadora da desgraça e por isso iria se matar, dar um fim a própria vida... kkkkkkk.
A principio não ri, porque não podia fazê-lo, mas a gargalhada ecoou, sim e foi uma risada muda. E continuo a me surpreender com minhas atitudes, confesso não sei de onde tiro tanto sangue frio.
Virei-me para a dramática Senhora que me acusava e prometia dar fim a própria existência, a encarei nos olhos e disse:
A senhora não pode responsabilizar minha filha, por suas alegrias, expectativas e não coloque na suas costas a responsabilidade de sua felicidade. Foi a única coisa que disse e nunca mais se tocou no assunto e a partir daquele momento a Senhora dramática passou a entender que não há culpados e que sexualidade alheia não interfere na índole da pessoa, nem em sua capacidade. Continuará a ser nossa menina, porém ela cresceu e têm suas próprias escolhas, muito natural, o mundo gira, as coisas mudam e minha opinião é que todos se encontrassem e fossem felizes.
Dai então, discretamente confesso, tentei mudar, confesso que não é o fim do mundo ter uma filha homossexual, mas fiz minhas tentativas, a oportunidade era aquela, a filha mais velha, “A Revoltada”, pediu ajuda numa questão muito delicada também, a vir passar uns tempos aqui em Tamoios, adorei, achei o momento certo, quem sabe a irmã mais velha estando por perto e as duas saindo juntas, tudo mudaria, esse era meu plano perfeito... Mas o destino quis que minha Revoltada conhecesse uma senhora, que também era homossexual e foi ai então que minhas filhas debandaram para as Paradas Gays e agora eram as duas optando por sexo com meninas...
Sem ter como lamentar, afinal estão com saúde, lindas e cuidam de suas vidas com responsabilidade, comecei a observar e concordo com minha bebezinha quando ela diz, que para ser gay é preciso muita coragem, cultura e grana, pois já são discriminadas naturalmente e se não tiverem um mínimo de cultura, coragem e um trabalho para sustentarem seus prazeres, estariam a beira do fracasso total.
O que tenho a fazer é respeitar suas escolhas, respeitá-las como ser humano, e torcer por sua felicidade. Sei o quanto gays, lésbicas e afins são tratados e o quanto são gentis e a maioria tem grau superior, trabalham, estudam e são admiráveis seres humanos.
Aprendi com minhas Filhas o quanto fui imatura e fui sim homofóbica, enquanto via no quintal alheio essas histórias, balançava a cabeça e dizia que esse mundo está se perdendo.
Diante de tantas hipocrisias que se veem por ai, sinceramente a preferência sexual das pessoas não altera em nada minha vida, pois não estou levantando bandeira e ou justificando nada.
Estou muito mais antenada nessa galera bonita, que mostra a cara sem medo de ser feliz. Quanto a minha filha Revoltada, voltou a Porto Alegre, abandonou o marido, casou-se com uma mulher e viveram felizes ate pouco tempo atrás, até onde sei, estão juntas até hoje e já se passaram cinco anos.
Sinceramente não foi fácil, tive que me reorganizar em conceitos e com o coração puro e livre de tudo que for pré-estabelecido, AMO minhas Meninas como são e respeito suas preferências. O importante e vê-las felizes.
E passei a ver com outros olhos meninos e meninas, principalmente a respeitar uma vez que não entendo-
Entender não quero, respeito e aceito, para que possamos ter uma convivência harmoniosa .
Agradeço a cantora Gretchen e jamais imaginei que fosse ser útil ouvir qualquer coisa que a dona do rebolado teria a dizer e me foi muito útil. Aprendi a ser menos julgadora, mais maleável, menos cricri.
Tirei a responsabilidade dos meus ombros, ficou mais fácil viver. Fiquei mais amiga de minha bebê e nos entendemos bem.
E necessário que façamos uma mudança em nossos conceitos, o mundo muda, as transformações estão a todo o momento vindo e o que parece ser certo para uns, errado será aos olhos alheios. Sejamos tolerantes, quem sou eu para julgar, sendo uma simples pecadora, um verme pensante diante do tamanho do Universo... Ninguém é dono da verdade. Só existe uma verdade, é aquela que carregamos em nosso intimo. Essa verdade se ouvida, ensina, liberta, transforma. A liberdade do amor implica em sermos livres. Disse a elas para se cuidarem e usarem camisinha, porém a minha bebezinha diz que beijo na boca não transmite doenças e nem engravida ninguém, tenho que discordar, beijo na boca pode sim transmitir muitas doenças, mas esse é outro capítulo.

Capítulo 24 - Perto do final, ou na verdade é o ponto final?

Estou na tentativa de finalizar minha auto biografia, saber que existem pessoas que se interessaram por minha história e se, de alguma forma, toquei o coração, ou se pude alertar, ou mesmo dar uma luz no pensamento de alguém já me sinto feliz e satisfeita, por isso além de muito grata de poder chegar a tantas pessoas por intermédio do Jornal Tamoios, meu muito obrigado Carlos Cabral, te adoro.
Durante esse tempo muitas coisas aconteceram de bom e outras nem tão boas assim, mas necessárias para que pudesse dar uma sacudida na minha vida, tão sem emoção! rss.
Vou seguindo nessa história, do qual já fui ameaçada de ser processada por minha família, mas como tudo na vida, não se pode agradar a todos ao mesmo tempo, tive vontade de largar tudo isso inclusive minha militância pela vida, em busca de oportunidades de inclusão social, e de nossas lutas, afinal não estou sozinha nessa jornada e nem conseguiria chegar até aqui se não tivesse apoio de amigos e a liberdade de ser assim tão despojada. Existe diferença entre ser despojada e ser largada, e ai que muitas pessoas acabam se confundindo comigo. Tenho a liberdade e me dou essa liberdade de ser exatamente quem sou, e sem a pretensão de ser o que não sou, muito menos mais que alguém. Minha postura é serena diante da vida, não adianta agir com pressa ou mesmo com mágoas no coração, isso não me pertence. A vontade é minha, mas a força vem do Universo.
O tempo é o melhor conselheiro, e olhando para trás em minha vida, vejo o quanto as coisa mudaram e continuam mudando. Não se pode ser o mesmo o tempo todo .
Fui convidada para participar do programa da Fátima Bernardes, eu e minha filha caçula, por intermédio de um amigo articulador político do GPV/Niterói. Foi tudo muito rápido e mágico, mas como já estou acostumada com ambiente artístico nada foi novidade, afinal já estive duas vezes na TV Tamoios, e já tinha uma noção de como funciona mais ou menos uma TV, porém na rede Globo e tudo gigante só essa diferença. Ida e volta ao Pronac em carro todo chiquetoso, me deu certo friozinho na barriga, tudo rápido e quando vi já estava de frente com a apresentadora, e nem deu tempo de falar quase nada, e minha filha não perdeu a oportunidade de dizer ''boa noite'' a apresentadora ...rsss, e ficou feliz da vida.
- Mãe ela respondeu meu boa noite!
Por tantos anos da vida, ela ouvia a Fátima Bernardes dizer ''boa noite'', sem poder responder! Acreditem ela fez isso e não quis tirar nem uma foto dos bastidores, já por mim teria tirado fotos até comendo, ou até andando naqueles toque-toques do Pronac. Enfim a experiência foi boa, consegui falar foi sobre preconceitos e o assunto da pauta era esse, foi ao vivo do dia 30 de novembro de 2015. Logo depois a TV Tamoios me convidou para uma segunda entrevista, ai me senti muito estrela, kkkkk, sempre com os pés no chão, e tendo cada vez mais certeza de quanto mais se fala de Aids, mais me afasto das pessoas, pois ninguém quer ser amiga (o), de quem abertamente diz ser soropositivo, e ainda me chamam de corajosa? Como assim?
Corajoso, em minha opinião, é quem se esconde e não assume, que tem o virus Hiv.
Viver se cuidando de todos, viver preocupado se alguém o viu na sala de espera do consultório médico ou mesmo passar o Riocard no ônibus (vale transporte para deficientes). Existem pessoas que abrem mão de seus direitos por medo do que os outros vão pensar. Isso é coragem em minha opinião, também não é sair por ai dizendo aos quatro ventos, sou Hiv +, mas não perco a oportunidade de esclarecer dúvidas em rodas de conversas, e respondo se alguém me perguntar.
Convivo naturalmente com o vírus há 26 anos, já chegando aos 27, por não ter esse tipo de preocupação, não conseguiria viver com medo, ou mesmo pensando sempre em agradar aos outros. Graças ao Cosmos, me libertei de conceitos que me aprisionam, e por esse motivo também não posso acabar com minha militância, para encorajar outros tantos portadores, afinal temos direitos conquistados e desperdiçar esses direitos seria burrice, pois tantas pessoas antes de nós, lutaram para que pudéssemos usufruir dessas conquistas. Além disso acho muito melhor viver na verdade, pode até parecer agressivo, pois cada um tem uma interpretação de acordo com seu nível intelectual. rsss...
O que para minha vida me faz bem, para outra pessoa pode parecer ridículo ou vice versa.
Mas não me importo com nada disso, quero ser feliz e se estou certa ou errada, só o bom amigo tempo mostrará. Acredito nessa paz espiritual que sinto quando falo de Hiv .
Muitos projetos engavetados, outros já sendo colocados em prática em Rio das Ostras. Em março começo meu curso de teatro, do qual pretendo montar um monólogo. Fazer arte é algo que alimenta meu espírito, descobri isso há pouco tempo.
Até porque trabalhar de carteira assinada ou um emprego público já não faz parte de meus planos. Sim um trabalho remunerado, mas nada que me prenda horas e dias confinada num espaço mínimo, até porque o desemprego anda a solta em nosso pais infelizmente, por isso meus planos vão além disso, pretensão talvez, mas nada fora do meu alcance. Tudo está a mão basta fazer um pouco de movimento no corpo e seguir adiante, por hoje vou terminando, essa historia não acaba aqui, pois a vida continua e só acabará quando eu morrer, e isso vai demorar um pouco, kkkkkk

 

 

 


Pesquisa interna


free
hit counter