Segurança - Carlos Guimar

Carlos Guimar é gerente de segurança corporativa na ICTS Security, empresa de consultoria e gerenciamento de operações em segurança, de origem israelense.

O que vai além das mortes dos agentes da segurança pública?

Outubro de 2018 – A dimensão de mortes de agentes de segurança pública trazia nas manchetes dos jornais uma conotação de indignação. Por conta de uma infeliz rotina, o fato ficou comum e virou pauta fria nos jornais, especificamente no Rio de Janeiro, onde já é rotina ter um policial morto por dia. Será que nos acostumamos? Não deveríamos! O maior bem é a vida e ponto final. Isso não se questiona.

Quando a fatalidade entra sem impactos no cotidiano das pessoas é um sintoma inicial de uma grande doença cível, uma espécie de febre terçã que nos consome a cada dia, sinalizando apenas com dores que estarão por vir.

O conformismo não deve fazer parte da rotina. Não devemos aceitar simplesmente as mortes destes profissionais e relativizar com a velha desculpa galgada na ideia de que existem outras tantas profissões de risco. É um ato falho da sociedade civil justificar tais falecimentos em uma razão simplicista.

Sim, é válido ter uma reflexão específica quanto à perda sistemática destes agentes, pois eles são os responsáveis pelo estabelecimento da ordem e a garantia do cumprimento das leis. São considerados a mais forte barreira real existente entre o bem e o mal. Aceitar a morte dos agentes é a mesma coisa que concordar com o poder dos criminosos, rompido até o último círculo de proteção e, de fato, estamos de cara com o que há de pior.

Porém, mais valido ainda é saber que existem inúmeros fatores sociais e econômicos geradores de violência, os quais não são tratados com a velocidade necessária pelo Governo. A violência é ágil e o crime está cada vez mais banalizado, passando a ocorrer em plena luz do dia, diante dos nossos olhos. O resultado? Crescimento na estática. Apenas!

Quanto mais a mediocridade tomar conta mais vidas se perdem. Não podemos aceitar que nossos protetores sejam tratados como estatísticas. Eles trabalham muito diante de um cenário caótico, que só aumenta mesmo com o número de prisões, de apreensões de armas e drogas, e como o sistema criminoso não é rompido em outras esferas o que resulta são mais riscos e, proporcionalmente, morrem mais.

A solução está nas mãos novo governante eleito. Tendo coragem, determinação e na sequencia divulgando e realizando planos e estratégias, trazendo a população para o centro da discussão, é uma possível saída. Todos serão ótimos críticos e fiscalizadores. Isso será muito bom. Demonstra a temperatura, dá o tom e auxilia nas mudanças quando necessário sob um regime democrático.

Porém, o ponto inicial do novo governante eleito é entender, de fato, o valor da segurança pública e entregar o tema a quem saiba conduzir de maneira estrutural, sem ações afoitas. Se faz importante criar uma política governamental urgente, com o foco em entender todas as adversidades para buscar potencialidades, e que mostre claramente o caminho para desenvolver seres humanos fortes e instituições sólidas.

Para arrematar, é fundamental ter a condução única e constante de especialistas em segurança pública, que não tenham outro interesse a não ser de preservar única e exclusivamente a integridade da sociedade como um todo, por meio de disciplinas rígidas e da coragem necessária para realizar as mudanças.

Oito pilha é um real e a força do roubo de carga no comércio ilegal

A cena do vendedor ambulante que entra no metrô para vender gadgets tecnológicos traz muitas situações à tona. Pode-se dizer da opção de trabalho de uma classe com menos oportunidades ou de pessoas economicamente menos abastadas, herdeiros de uma crise monetária assolada no País há pelo menos 04 anos. Essas são algumas conotações vista num primeiro momento.

Mas indo além dos olhos comum da população, o moço que vende “oito pilha a um real” é um filho passivo do roubo de carga, algumas vezes sem saber que faz parte de um esquema fraudulento. O comércio ilegal de produtos é um dos fatores ligados ao oceano de situações originadas pelo roubo de cargas, um crime que permanece sem controle nas principais regiões brasileiras.

Recentemente foi demonstrado em um conceituado fórum sobre o tema que o Rio de Janeiro, reconhecido pelo seu poder bélico, e São Paulo, onde há um caso de roubo de carga por hora, permanecem na liderança deste grave problema, que já afeta modais de todo o País. Alimentos frigorificados, eletroeletrônicos (olha os vendedores ambulantes aí) e bebidas estão no topo das cargas mais furtadas.

O problema é mais embaixo e traz duas constatações para motivar os índices periclitantes do roubo de carga no Brasil. A primeira está ligada ao ambiente sócio econômico. A população desempregada gera um forte mercado paralelo, que está associado à crise moral e ética pela qual o brasileiro passa. As feiras conhecidas como "robautos”, os tais mercados a céu aberto, onde produtos roubados são expostos e vendidos, crescem dentro e fora das comunidades, expandindo para o comércio ilegal nos trens, metrôs e ônibus.

A segunda constatação é a segurança pública, que é afetada com o total desinvestimento do Estado, com a falta de investigações e a de prisões dos receptadores. Diante de olhos tapados das autoridades, o crime organizado se estrutura cada vez mais e as cargas roubadas viram uma parte importante da receita das facções.

Não perdendo nada para grandes holdings, a logística dos interceptadores é uma aula de escoamento estratégico a parte. Caminhões são abordados em vias na entrada de comunidades e levados para pontos não alcançados pela polícia. É praticamente uma entrega expressa na porta de casa dos marginais, sem o menor esforço logístico. Para se TER ideia, no mercado bélico ilegal, as armas, e também as drogas, precisam de um esforço maior desde a compra, passando pelo transporte, chegando na estocagem até a venda.

Assim como em empresas, sob a máxima do tudo que é muito bem planejado alcança resultados super satisfatórios, no mercado de roubo de cargas não é diferente. Contas feitas por institutos especializados em segurança pública mostraram que os criminosos lucram com o roubo de cargas em um único dia, só no Rio de Janeiro mais de um milhão de reais, na qual esta mesma quantia seria arrecadada em mais de uma semana vendendo drogas.

É preciso tratar com urgência. As empresas e a população são impactadas demais pelo roubo de carga. Existe uma miopia do governo neste entendimento, que deixa de arrecadar milhões por mês devido a este crime.
Atualmente, o que se tem como combate efetivo são ações no campo político, de intenções, capitaneado por políticos diversos, por associações, dentre outras entidades que trafegam com cartas e ofícios de solicitações com macro ideias, porém sem prazos definidos. E só! Nada de concreto.

Neste cenário, resta ter a maturidade para entender, decidir, investir e realizar uma gestão de mudanças, demonstrar inteligência e visão. Resta a proatividade da iniciativa privada. Enquanto não vem, as empresas especializadas em segurança têm se tornado uma opção para as companhias que desejam mitigar o roubo de carga e todos os seus desdobramentos corporativos/sociais.

Seja no uso de tecnologias para gerenciar riscos ou em procedimento para analisar possíveis gargalos ligados à falha humana, o esforço das empresas já um grande passo no âmbito social para evitar a proliferação de mais filhos indiretos do roubo de carga.

O que se espera (va) da intervenção militar na segurança do Rio de Janeiro?

Decretada há quatro meses com o intuito de diminuir os índices de criminalidade, a estratégia de intervenção militar no Rio de Janeiro, antes de tudo, deve ser revista e ter a velocidade reprogramada. Tudo é muito urgente quando vidas estão em perigo.

As forças armadas, que já vem atuando desde meados de 2017, quando foi instituída a Garantia da Lei e da Ordem (GLO) e, em seguida, com a efetivação da intervenção militar em fevereiro de 2018, fecha os primeiros meses de atuação apresentando pequena redução nos números de violência no Estado, devido a todo o contexto envolvido podemos entender como ínfimo.

Vale ressaltar também que embora os números mostrem aparente redução ou manutenção em relação a 2017, ainda estão muito acima do que ocorreu em anos anteriores, como em 2015 ou 2016.

Contudo, a ideia de ficar "enxugando gelo" ou demonstrar força, como no caso da Vila Kennedy, na Zona Oeste do Rio, deve ser abandonada de imediato e não pode ser direcionada para outros lugares, pois sempre haverá recursos para a reposição pelos marginais, enquanto a cadeia logística do crime permanecer ativa.

Ao mesmo tempo em que se luta por recursos financeiros, a altura do problema, que jamais chegarão, e tiverem que se virar com o mínimo disponível, os criminosos seguem juntando fortunas com o tráfico de drogas, armas, cargas roubadas, cobrança de pedágios, sinais de TVs e transporte clandestinos.

Hoje, estamos vendo uma amostra de gestão pelo Comando Militar responsável, mas vale lembrar que o buraco é muito mais fundo e, ainda, que será necessário manter toda essa estrutura depois. A regra de instalar e operar sempre foi seguida do manter.

Muito se fala da inteligência e sua forma direta de se traduzir na produção de um conhecimento, entretanto, é importante salientar que é preciso velocidade nas ações, pois este conhecimento tem que ser oportuno. O crime é organizado e se movimenta constantemente, inclusive, com ações estratégicas. Um exemplo é a nova formação de grupos "narcomilicianos", em que há união de milícias e demais facções criminosas.

A expectativa está em quando será quebrada a gestão e a cadeia de suprimentos do crime. É de conhecimento que nos presídios estão os "cabeças", ou os “chefes”, e que as estradas, aeroportos, portos e outros atracadouros clandestinos são os locais por onde chegam os suprimentos. Então, por que ainda não se ocupou os presídios? E por que ainda não se está sufocando por terra, céu e mar? Ficam as perguntas diante de uma realidade na qual a intervenção tem validade.

Combater o crime é inevitável e urgente, não sendo apenas uma ação de governo e, sim, de Estado. A questão está em como ficará a situação em breve e quando acabará este último suspiro.


Milícia não é polícia

14/05 - Um levantamento do Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro, citado há poucos dias no jornal O Globo, revela que em oito anos as milícias dobraram sua área de atuação no município carioca. De 2010 até hoje, o total de favelas sob o controle de grupos paramilitares aumentou de 41 para 88. O dado é reflexo da forte atuação das milícias que, assim como as facções, se impõem atualmente como uma opção de combate à insegurança frente ao decadente cenário urbano do Rio.

Há quem defenda a presença do grupo como a solução ideal para um basta na desordem urbana carioca, uma vez que o Estado se mostra cada vez mais enfraquecido com suas políticas públicas de mitigação à violência. Mas não é bem assim. Não podemos defender a atuação das milícias simplesmente como uma medida desesperadora de autodefesa cidadã.

O encantamento popular se dá porque as milícias têm uma posição, digamos assim, mais oficial sob os olhos da comunidade. Talvez não é sabido pela grande massa da livre passagem que o grupo tem nos bastidores do poder estatal, com suas equipes compostas por policiais militares aposentados e/ou expulsos, bombeiros e outros profissionais ligados a entidades de proteção civil. Esta mescla de leis próprias com mecanismos estatais cria um poder paralelo, capaz de ganhar o respeito em determinados territórios do estado do Rio de Janeiro, sobretudo, os localizados em áreas periféricas.

Engana-se quem acha que há um cunho puramente social na gestão dos grupos paramilitares nas favelas. Eles até podem garantir mais segurança à comunidade em relação a outros criminosos, como assaltantes e traficantes, mas há um preço a ser pago pelos moradores. As milícias controlam serviços, como a TV a cabo e a distribuição de botijões de gás, bem como cobram taxa aos moradores e comerciantes. Um ato rentável, que despertou o interesse escuso de várias esferas oficiais da sociedade.

O apoio político também tem uma importante presença ao se envolver neste processo em busca de votos nestas regiões mais carentes. Juntando a fome com a vontade de comer, os políticos têm polos eleitorais estabelecidos nessas comunidades, conquistam votos de cabresto e, como forma de agradecimento, o estadista dá proteção aos criminosos.

Talvez isso explique o papel reativo das autoridades competentes para combater as milícias. Houve uma CPI isolada aqui. Algumas operações específicas quando a coisa estava muito gritante ali e, assim, seguiu o baile focando mais em ações contra as facções criminosas, tidas como não oficiais neste caso. Nada mais do que isso.

A cada dia, as milícias estão cada vez mais fortes, com muitas armas e muito dinheiro para financiar a compra de mais estrutura e o silêncio de muitos. Atualmente, mapeia-se, pela Inteligência da Segurança Pública, mais de 200 territórios espalhados por todo o Estado, onde já se falam de uma milícia pura, formada somente por agentes públicos, e de uma milícia mesclada, em que já houve o recrutamento e a junção de traficantes. Nesta última, se juntou também os modelos de captação de recursos, por meio de pedágios ilegais e do tráfico de armas e drogas.

Por isso, pense duas vezes ao defender a presença de grupos paramilitares no quadro de intervenção do Rio de Janeiro. Não sejamos vítimas da nossa afoita ignorância, mesmo vivendo em tempos vulneráveis de violência. Milícia não é polícia.

Sobre a ICTS Security

A ICTS Security (www.ictssecurity.com.br) é uma empresa de consultoria e gerenciamento de operações em segurança, de origem israelense. Proporciona tranquilidade pessoal e aos negócios de seus clientes ao oferecer segurança e proteção com agilidade e independência, fundamentada em visão e conhecimento abrangente de riscos. Executa soluções pragmáticas, dinâmicas e integradas com uso de metodologia pioneira e tecnologias atuais.

Presente no Brasil desde 1995, atende a clientes com os mais variados desafios em questões de segurança, bem como organizações com logísticas complexas e altamente expostas a riscos, a partir de escritórios em São Paulo e Rio de Janeiro.

Sua metodologia de resultados comprovados e sua equipe de profissionais altamente qualificados lhe confere o reconhecimento como referência no mercado. A ICTS Security é uma empresa ICTS.

 

 


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