Jornal Tamoios
Cabo Frio, Tamoios,

Homem morre dentro de casa e família precisa levar corpo enrolado em lençol com a ajuda de vizinhos em Cabo Frio

19/06/2020 - Um homem de 54 anos morreu dentro de casa no bairro Praia do Siqueira, em Cabo Frio, e a família dele precisou levar o corpo, por conta própria, para uma UPA, depois de ficar cerca de 5 horas tentando ajuda de algum órgão público que pudesse remover o corpo do local.

Os familiares de João Carlos Pereira Coelho contaram com a ajuda de amigos para levar o corpo. “Ele saiu daqui enrolado no lençol que ele morreu e na caminhonete do vizinho. Isso é um descaso”, disse a sobrinha de João, Pollyana Lemos.

Segundo a família, o homem morava no mesmo quintal da família, era alcoólatra e, quando não ingeria bebidas alcoólicas, tinha ataques e se trancava dentro de casa para dormir.
João Carlos tinha cinco filhos. A mãe dele precisou ser medicada para receber a notícia da morte do filho.

Por volta das 15h desta terça, João tinha se trancado em casa, mas desta vez os familiares o chamaram e ele não respondeu. Quando entraram na casa, o encontraram morto. De acordo com os familiares, após constatarem a morte, eles tentaram contato com vários órgãos. Primeiro, os parentes ligaram para o Corpo de Bombeiros, mas foram informados que teriam que acionar uma funerária. Em seguida, eles disseram que ligaram para funerária e foi cobrado o valor de R$ 3 mil. A família não tinha condições de arcar com a despesa e entrou em contato com a Assistência Social do Município. A assistente social então teria dito à família que eles precisariam levar o corpo pra UPA por conta própria.

“E a pessoa que não tem condições de dar R$ 3 mil reais pra funerária? Vai fazer o quê? Vai abrir um buraco no quintal e jogar o corpo ali?”, disse a sobrinha.

Os familiares alegam ainda que tentaram pedir a ajuda da Polícia Civil, que também não cooperou. O corpo ficou até às 20h dentro de casa e, como nenhum órgão prestou assistência, a família seguiu a orientação da assistência social e, com a ajuda dos vizinhos, levou o corpo para a UPA do Parque Burle. O corpo de João Carlos passou por procedimentos necessários e foi encaminhado para o IML de Macaé para identificação da causa da morte.

O que dizem os órgãos?
Questionada sobre a falta de atendimento à família, a Prefeitura de Cabo Frio informou que a remoção e verificação de óbito não é feita pelo município. E disse ainda que o município “é responsável pela verificação e remoção apenas em casos de óbitos dentro das unidades de saúde”.

Em 2006, foi criado no município de Cabo Frio o Serviço de Verificação de Óbito (SVO). A lei que foi aprovada pelo então prefeito Marcos Mendes diz que “para os casos de morte em residência sem assistência médica, será necessária a autorização da autoridade policial responsável”.

O município informou que só realiza a remoção do óbito nas residências de famílias que se enquadrem nos critérios de Benefício Eventual de Auxílio Funeral. Disse ainda que a secretaria de Assistência Social atende com os serviços de remoção, traslado e funeral e que para isso, a família precisa informar ao setor que funciona em regime de plantão.

A prefeitura disse ainda que “lamenta e esclarece que a Secretaria não foi informada”. O município ressaltou que “assim que a secretaria foi acionada, foi feita a entrevista de perfil socioeconômico e a situação foi resolvida”.

Questionada sobre a Lei que criou o SVO, o município informou que a Lei não dispõe sobre remoção do óbito, apenas verificação.

Em contato com a Polícia Civil para saber o motivo da delegacia não ter prestado socorro à família, a assessoria da Polícia Civil informou que “de acordo com a 126ª DP, em casos de mortes por causa natural, o responsável pelo atestado é o serviço de verificação de óbito dos municípios”.

Em contato com a assessoria do Corpo de Bombeiros do Estado do Rio de Janeiro, a assessoria respondeu, que a atuação do rabecão da Defesa Civil do Estado está diretamente ligada ao acionamento por parte da Polícia Civil, que por sua vez atua em ocorrências de crime.

A assessoria do Corpo de Bombeiros e Defesa Civil esclareceu ainda que o acionamento de remoção de cadáveres por parte da Defesa Civil do Estado é feito, exclusivamente, pela Polícia Civil, que emite um documento chamado GRC (Guia de Recolhimento de Cadáver). E disse ainda que a retirada de um corpo pela equipe de militares depende da emissão da documentação citada, que funciona como uma autorização legal para o recolhimento. O documento GRC é imprescindível para a entrada no IML.

jornaltamoios@yahoo.com.br